Paletó e gravata

Por: Chiachiri Filho

Não faz muito tempo o paletó e a gravata eram necessários, obrigatórios, indispensáveis. Ninguém ia à igreja, ao cinema, a um baile, a um funeral, a uma solenidade qualquer sem estar devidamente vestido por um terno. De dia ou de noite, com calor ou frio, com chuva ou sol. O paletó e a gravata faziam parte integrante da indumentária masculina.

Antes de completar os meus sete anos, ganhei o primeiro terninho. Era completo: calça curta e paletó azuis-marinhos, camisa branca, gravatinha borboleta, suspensórios e cinta de couro. Estreei-o numa festa de casamento. Na volta, vinha correndo na frente de meus pais e, ao atravessar o Beco do Bachega, tropecei numa pedra e caí de bruço num leito de poeira fina. Antes que eu ouvisse a repreensão materna, o meu pai levantou-me, limpou a poeira e carregou-me em seus braços até minha casa. Depois de um bom banho e os curativos nos joelhos, puseram-me para dormir.

Certa vez, em Ribeirão Preto, não me deixaram entrar numa sessão de cinema porque, apesar de vestir um paletó, eu estava sem gravata. E eu só tinha treze anos.

Nas pessoas de poucos recursos, tolerava-se a falta da gravata. Contudo, nos homens “de posição” a vestimenta deveria ser completa, constante e rotineira.

Dizem que o uniforme do advogado, como também do juiz, do promotor, é o terno. Até a década de 60, eu nunca havia visto um juiz sem gravata e paletó. Por isso, quando o Dr. Manuel Carlos de Figueiredo Ferraz Filho apareceu na Praça Barão da Franca em mangas de camisa ( mangas curtas ) para tomar um cafezinho, a surpresa foi geral, bem como os comentários:

“- Vocês viram o Juiz de Direito, na Praça, sem gravata e paletó, tomando cafezinho e cumprimentando todo mundo com um sorriso nos lábios?!

Evidentemente, ninguém teve a coragem de criticar publicamente o Magistrado. Os comentários desairosos e reprovadores ficaram no anonimato.

O mesmo não ocorreu com D. Diógenes da Silva Mathes, o primeiro Bispo Francopolitano. Foi só ele aparecer nas páginas do Comércio em mangas de camisa (mangas compridas) para receber uma “espinafrada” de Sílvio Teixeira em sua coluna publicada pelo mesmo jornal. Sílvio, que escrevia sob o pseudônimo de Dr. Espinafre, reprovou a indumentária do Bispo e considerou-o como “muito moderninho”.

Os tempos mudaram e mudaram para melhor. Para que tanta roupa num país tropical? Afinal, paletó e gravata são bons para gente muito magra ou muito gorda: tampam as carências ou as abundâncias.

Neste país tropical, bom mesmo é o bermudão, o chinelão e a camiseta. E que sejam bem largos para facilitar a ventilação.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras