Saudade

Por: Marco Antonio Soares

Imagine um rio, que por falta de chuvas, que por excesso de sol, chore a ausência de suas águas. Seu leito não seria mais que enorme cicatriz a percorrer a terra. E os animais que, apoiados na ponta dos cascos, recebessem os beijos molhados, e lançassem olhares secos sobre o esqueleto do velho amigo.

Imagine um céu, que por obra da escuridão, tivesse todos os seus pontos luminosos abrigados por manto escuro. Nossas noites seriam uma mera ausência do dia. E os namorados não apontariam seus dedos para o alto. E os amores não se julgariam infinitos.

Imagine um parque sem brinquedos, cujas manhãs sonhassem com sorrisos, algazarras, corre-corres, mas que tivesse em torno de si somente um grupo de meninos velhos que, ocupados, não brincassem mais, não rissem mais, que trabalhassem por seus futuros e desconhecessem a inocência.

Imagine “a mãe que arruma o quarto do filho que não voltará jamais”. Assim, enxergaremos as garras de um monstro chamado saudade, que lacerou e lacera o coração de tantos pais.

Imaginemos que tenha Deus, em algum de seus bolsos, um analgésico certo para esse tipo de ferida e que ele seja forte e que haja rápido como um acidente automobilístico.

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