Palavras em desuso

Por: Everton de Paula

Por enquanto, elas se acham em desuso. Para que não caiam logo no esquecimento do povo, relembro aqui algumas palavras que deixaram de ser usadas ou foram trocadas por outras, mais moderninhas.

Charanga:era uma pequena banda de música, formada por instrumentos de sopro e percussão e tocada por músicos amadores. Fazia muito barulho e pouca arte. Daí, pelo ruído diverso que produzia, na nossa época de menino púnhamos o nome de charanga nos automóveis velhos, a que também chamávamos de ximbica ou calhambeque. Por exemplo, o Ford construído no ano de 1928, chamado Ford de bigode, devido à posição do câmbio na direção. Talvez aí tivéssemos o motivo da origem e relação dessas palavras.

Mixuruca: fraco, sem valor, de baixa qualidade. Às vezes, este termo era empregado para adjetivar um objeto: Ganhei um presente mixuruca no Natal. Ou ainda Minha nota de Matemática foi mixuruca. Outras vezes, referia-se ao homem de baixa idoneidade ou mesmo sem posses: Nestor é um homem mixuruca; por isso, não vai conseguir casar-se com Adelaide.

Chimite: esta é fácil. Surgiu por volta de 1970 na região Sudeste do Brasil. Significava algo próximo a “tudo bem”, “tudo certo”. A palavra era acompanhada de um gesto feito pela pessoa que a pronunciava: os dedos da mão direita fechados e o polegar levantado, para cima: A seleção brasileira, nesta Copa do México, está ó chimite! Essa expressão seria “prima” de outra empregada pelos cantores da jovem guarda, capitaneados por Roberto Carlos: é uma brasa, mora! Alguns estudiosos da matéria afirmam que chimite é uma expressão nascida da pronúncia da marca de pistolas norte-americanas Smith & Wesson que, por sua alta qualidade, acabara se transformando em expressão que denotasse o significado próprio de chimite. Aliás, “chimite” (ou “shimite” com S?) era a forma verbal de se identificar essa arma.

Aquela doença: expressão usada pelos mais velhos, pais, tios, avós (nunca pelas crianças), para identificar, por exemplo, um câncer que houvesse tomado um órgão de determinado indivíduo. Não se dizia Arlindo está com câncer Seria uma forma “brutal” de se nomificar a doença de Arlindo, pobre homem. Preferível dizer, quase aos sussurros, Arlindo está com aquela doença. Era o emprego de um eufemismo, expressão mais suave, menos agressiva, para comunicar alguma coisa áspera, rude, desagradável ou chocante. Interessante essa relação e forma de tratamento dos antigos; lembro-me de que não se dizia “os mortos”, mas “as almas”. O nosso mestre de Português, professor Alfredo Palermo, quando estávamos no curso ginasial, nunca dizia “sua nota está muito ruim” ou “você é um aluno malcriado”. Preferia a forma delicada, profunda, persuasiva e alentadora “Você é capaz de fazer muito melhor que isto!”

Coreia só fui compreender o seu significado no início da puberdade. Antigamente, coreia era a zona de meretrício, localizada num bairro afastado da cidade, com ruas poeirentas. Havia uma forma de identificação para diferenciar a casa de meretrício da casa de gente “honesta”. Onde houvesse prostituição, havia uma lampadazinha vermelha acesa no alpendre. Nas residências de respeito, costumava-se escrever na parede: “casa de família”. E cada um seguia o seu destino na noite que abraçava a todos. Confesso haver pesquisado um pouco mais e não ter encontrado a relação entre Coreia, nome de país, e coreia, zona de prostituição. Talvez algo a ver com a guerra da Coreia ou dos navios coreanos que aportavam em Santos, no início da segunda década do século passado, propiciando a seus marinheiros pisarem em terra firme e se dirigirem, imediatamente, aos locais de prostituição.

Abobrinha este é o nome do fruto verde da aboboreira, tão apreciado quanto o fruto maduro na alimentação do homem. Devido a sua coloração alaranjada, relacionaram-na com a nota de mil cruzeiros antiga, que trazia a imagem do rosto de Pedro Álvares Cabral. Esta nota era de cor alaranjada e muito, mas muito difícil mesmo de se trazê-la na carteira ou no bolso. Abobrinha, com o sentido de nota de mil cruzeiros antiga, é uma gíria obsoleta.

E aí, leitor, lembrou-se dessas palavras? Recordou-se de outras? Eu relacionei ao menos cinquenta delas. Mas devido ao espaço que nos é reservado neste caderno, fico apenas com estas seis. No próximo sábado apresentarei outras como marica, zoró, treco, caveira, tábua, , meia-tigela e mais algumas, todas elas com sentido trocado, ora um eufemismo ora o emprego de gíria.

Aliás, você sabe o que significou o fino da mocotripa?

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