“O leopardo pode mudar suas manchas?”

Por:

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“o excesso de sabedoria
pode transformar-se em
loucura, mas a sabedoria
só a impede, misturando-se à
loucura da poesia e do amor”.

Edgar Morin


Quem tem medo da Loucura? Um desborde para lá e perdemos a Razão, ou ela nos fabrica um mundo à parte. Se, ao contrário, o freio interno é forte, perdemos a plenitude de uma vida livre, intensa e pessoal. Qual o grão “para lá” que leva ao confinamento interno, a Loucura?

O filme de 1996, dirigido e escrito por Scott Ricks, Oscar de Melhor Ator para Goffrey Rush, traz a história do pianista David Helfgott, vivo hoje e fazendo concertos pelo mundo.

Toda vida merece um livro, afirmou Mario Vargas Llosa. No filme o Amor e a Liberdade, em meio a abismos da alma, e escuridão.

A Loucura é um caminho trilhado por David Helfgott, talvez inevitável. Já nos letreiros, um monólogo de David que está se recuperando da catástrofe psíquica. Ele tartamudeia, enquanto contempla pessoas desconhecidas, através de uma parede de vidro de um bar: um gatinho não sabe quando vai ser atacado(...) O leopardo pode mudar suas manchas?”(...) A vida é um risco constante.

David, alma lavada pela chuva, exprime o sentir do “louco”, excluído da comunidade humana (a parede de vidro). O desabrochar da consciência do sofrimento que o desintegrou na relação com o pai esquizofrenizante (“um gato nunca sabe quando vai ser atacado”). E a rica reflexão (o eu-cristal, psíquico, pode ser colado?), de que ele, David, era diferente. Voltará a ser diferente de novo? (“o leopardo pode mudar suas manchas?”).

Construir uma ponte, entre a Loucura e a Sanidade, juntando palavras, juntando afetos, realizando o mistério de sobreviver ao Caos psíquico. Para David, a Música era a estrada de fuga para a Loucura, e a estrada de volta à Sanidade. A obsessão pode ser fator de vida e morte. Edgar Morin dizia que “o destino antropológico do homo sapiens-demens implica em nunca cessar de fazer dialogar em nós mesmos sabedoria e loucura”

O pai de David desenvolveu um “duplo vínculo” com o filho, enlouquecedor. Exigia virtuosismo do filho ao piano, traumatizado por não ter conseguido, no passado, realizar seu desejo de ser violonista. Obrigava David a reconhecer que ninguém o amaria mais do que ele. “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. A Música foi o instrumento de controle do filho pelo Pai. David não tinha a liberdade de amar a Música ao seu modo. Sem permissão de amar os dois, o pai e a Música, permanecendo “David”.

David rompe com o pai, ao escolher a Música mas também rompe consigo próprio, ao atingir o sucesso almejado pelo pai (dominador). O transborde musical de David lhe cobra um preço altíssimo, tsunami cuja energia submerge o “eu” de David, que se esfacela. Ele se re-integra, via Música.

Por duas vezes David disse “não” ao pai. Da primeira vez o gesto foi apocalíptico. Recuperado do seu grande colapso mental, dá o seu “não” definitivo ao pai, de modo consciente, ao mentir, ao se recusar a desempenhar o papel de testemunha estática da história traumática dele, quando o pai lhe pergunta: “você sabe o que meu pai fez com o violino que eu tanto queria aprender a tocar?” Pergunta estribilho que David-criança e adolescente ouviu, e era obrigado a re-contar ao pai traumatizado. David quase realiza a saga paterna, ao quebrar, não o piano, mas a sua mente, impedindo-se de tocar a sua Música (e viver). Qual fênix, David consegue recriar a sua história, seu tempo, seu espaço, sua vida.

Scott Ricks narra a força de um caráter corajoso, que periclita no estreito abismo entre a Loucura e a Sanidade, mas mantém - sem concessão à Loucura ou a Sanidade -sua capacidade de entrega amorosa.

Maria Luiza Salomão
Psicóloga, Psicanalista, autora de A alegria possível (2010)

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