Medo

Por: Chiachiri Filho

Depois do carnaval, vem a quaresma. São quarenta dias de meditação, de jejuns e abstinências, de penitências, de expiação dos pecados. Era um tempo de silêncio e recolhimento em que o mundo povoava-se de almas penadas, de assombrações de toda a espécie, de mulas sem cabeça, sacis, capetas chifrudos com pés de bode, lobisomens e outros entes fantasmagóricos. Era um tempo de “arrepiar” arrepiar de medo.

Hoje em dia, a quaresma não tem mais aquele antigo significado e pavor. Os seus fantasmas viraram objeto de chacota.

Embora sejam outros, os nossos medos continuam a nos assustar ao longo da vida. Desde a mais tenra idade, o medo está presente em nossa educação. Quem não se lembra das cantigas de ninar que dizem:

“Dorme, nenê, que o bicho vem pegar... “

Quem não se recorda das advertências da mãe:

“Menino. Vem para dentro senão o velho com o saco nas costas te pega...”

O medo é um poderoso instrumento pedagógico. Não me esqueço das descrições do inferno feitas pelos irmãos maristas nas aulas de religião. Eram terríveis, apavorantes! Deixei de cometer muitos pecados por temor às chamas infernais.

Se a mula sem cabeça, o bicho papão e as almas penadas já não nos assustam mais, outros medos foram criados para nos apavorar. São medos cientificamente construídos e, por isso mesmo, causam-nos muito mais desassossego, aflição e temor. A hecatombe nuclear é um deles. Durante umas cinco décadas vivemos angustiados pelo perigo e a devastação de uma guerra atômica. Com o fim da guerra fria, a ameaça atenuou-se. Por um breve período, o perigo em voga estava na destruição da camada de ozônio que protege o planeta. Atualmente, é o “efeito estufa” que nos atemoriza. O certo, prezado leitor, é que nunca estamos tranqüilos: há sempre uma ameaça, real ou imaginária, pesando sobre a frágil humanidade. E os meios de comunicação divulgam e descrevem o perigo em páginas e páginas de puro terror.

Vivemos sob o signo do medo. Há medos pequenos, cotidianos, individuais. Há também os grandes medos que atingem toda a humanidade e fundamentam-se em teorias científicas. O fato é que o medo faz parte de nossa existência e não há meio de aboli-lo. O jeito é enfrentá-lo e, cá entre nós, prezado leitor, eu preferiria muito mais defrontar-me com o saci pererê do que com os ventos radioativos.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras