Presente de aniversário

Por: Marco Antonio Soares

Peguei algumas notas, dobrei-as e as coloquei no bolso. A casa de aves ficava a poucos quarteirões de minha casa e, como trazia a alma cheia de metáforas descoloridas, resolvi caminhar um pouco. De quando em quando, afogava a mão em meio às cédulas, não pelo prazer de senti-las, mas por receio de perdê-las. Os infortúnios anteriores nos dão hábitos; por isso, às vezes, faço rápidas visitas aos amigos, pouso-lhes as mãos sobre os ombros, beijo-lhes, de leve, o rosto. É assim que tento evitar as ações do tempo que por conta de sua mesquinhez, vez ou outra, rouba-nos o que é de valor.

Ao me aproximar das gaiolas, um moço solícito mostrou-me os pássaros de que dispunha. Explicou-me os motivos das cores, desenvolveu teses sobre os tipos de canto, separou aves velhas e novas, apontou fragilidades, resistências, modelos de gaiola, tudo inútil. A dona do presente não entendia nada de passarinhos, eu também não. Aliás, não compreendi o pedido inusitado da esposa, só o atendi.

Quando voltei ela já me esperava ao portão. Não reclamou, como das outras vezes, da precariedade do presente que sequer recebera um laço. Pegou a gaiola, atravessou a rua e, de frente para a mata, que fica na esquina de minha casa, foi soltando um a um os cinco canários. Tentei contê-la, julguei-a louca, argumentei que morreriam, pois não estavam acostumados à natureza. Ela me olhou firme, escancarou um sorriso e disse:

– Não importa, é preferível morrer livre a morrer inocente em uma prisão.

Rapidamente as aves sumiram em meio às árvores. Deixei a gaiola em suas mãos, pedi que guardasse para o meu aniversário.

O colorido de algumas metáforas adejaram sobre mim, sem medo algum de serem aprisionadas.

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