Coisas da idade

Por: Mauro Ferreira

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Na academia que freqüentava, ao som de uma música bate-estaca, a jovem e musculosa instrutora sempre lhe perguntava se havia alguma articulação doendo, se o joelho e a coluna tinham melhorado. Ela apenas respondia sorrindo: “acordei só com as dores antigas, nenhuma nova”. Tinha adotado uma dieta vegetariana em função de recomendação médica, continuado por causa dos resultados estéticos e hoje só mantinha as aparências para encher o saco dos amigos, que viviam marcando churrascos em Rifaina no final de semana e tinham que se preocupar com um menu separado para ela, que incluía churrasco de berinjela, cenoura crua, folhas variadas e beterraba ralada.

Nestes convescotes, gostava de se apresentar como vegana e explicar com detalhe o significado desta nova palavra de ordem das magrelas preocupadas com a silhueta, em especial para as amigas rechonchudas e que morriam de inveja de suas curvas ainda intactas, pelo menos quando estava vestida. Embora, pelas costas, sussurrassem que ela continuava assim por dois motivos básicos: não ter parido filhos nem ter marido barrigudo e bebedor de chope para cuidar.

O certo é que ela se cuidava. Lia tudo sobre novas técnicas de rejuvenescimento, alimentação, exercícios, drenagem linfática, pilates, tinha dado entrevistas até para o “Se Liga”. Nada de cirurgias plásticas, tudo natureba. Não caminhava mais depois das dez horas da manhã por causa das manchas no rosto que poderiam ser causadas pelo sol, embora fosse a principal consumidora de cremes antiruga, hidratantes e protetores da farmácia do Cacheado. Os pedreiros e serventes de uma obra perto de sua casa já tinham se acostumado a esperar sua passagem diária, como se estivesse no calçadão de Copacabana, impecável em seu legging roxo, o tênis com amortecedores e o chapéu internacional de palhinha, igual daquele artista e arquiteto famoso da cidade. Quando passava diante dos tapumes da obra do Zé Omar, sabendo-se observada, ela empinava a bunda para que não vissem o pouquinho que tinha de celulite e respirava fundo para a barriguinha (quase igual da Shakira) não aparecer de jeito nenhum. Era um sucesso.

Ela sabia que, mesmo aos cinqüenta anos de idade, ainda era uma mulher muito bonita e atraente. Mas um dia aconteceu algo que mudou tudo. Costumava freqüentar uma gráfica em função de sua profissão numa fábrica de calçados e sempre tratava vários assuntos com o atendente, um rapaz com uns vinte anos de idade, simpático, eficiente e rápido de raciocínio. Isso foi até quando ele resolveu agradar a cliente, fazendo o que lhe pareceu um elogio: “a senhora sabe o que dizem meus colegas da gráfica? que a senhora deve ter sido muito bonita quando jovem”. Ela sorriu amarelo e, embora furiosa, manteve a classe, agradeceu e saiu. Saiu bufando e pisando duro.

Em casa, pensou bastante sobre o ocorrido e a única coisa que fez foi mudar radicalmente de fornecedor de impressos e embalagens. Ah, e de terapeuta também.

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