Reapresentação

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No nordeste do Japão, a destruição chegou por terra, mar e ar. Milhares de pessoas estão desabrigadas. O número de mortos cresce, a cada dia. Níveis elevados de radiação atingem diversas cidades. A neve e a falta de energia aumentam o drama da população.

Notícias como essa nos remetem a situações de guerra, a ogivas e invernos nucleares. Fukushima, hoje, nos lembra Hiroshima, embora, na hecatombe de agora, a força responsável pelo ataque tenha sido a da natureza, contra a qual ainda não se desenvolveu proteção eficaz. A ela, somam-se a ousadia, a afoiteza do homem, na conquista do desenvolvimento tecnológico, e a sua enorme fragilidade.

Vem-me à mente, neste instante, o poema Apresentação, de Cecília Meireles, em que o “eu-lírico” tem a dimensão do Homem - no espaço, no tempo, no Universo. Incorpora a perspectiva e os contornos da caminhada humana, que se faz e se desfaz - entre avanços e recuos; entre brisas e tornados - em círculos e espirais:

“Aqui está minha vida - esta areia tão clara / com desenhos de andar dedicados ao vento”.

Ecoa o humano canto, que se compõe e se decompõe, através dos tempos, entre idas, vindas e adeuses; encontros, construções e destruições:

“Aqui está minha voz - esta concha vazia, / sombra de som curtindo o seu próprio lamento”.

Fala-nos de força e padecimento; de mortes e dolorosas revivências, entre ondas e tsunamis, que, instáveis, chegam e já se vão:

“Aqui está minha dor - este coral quebrado, / sobrevivendo ao seu patético momento”.

Entre os muitos semeares; entre secas e dilúvios, vazantes e preamares, expõe-nos a frágil condição humana, e seu legado de encanto, desencanto e sofrimento:

“Aqui está minha herança - este mar solitário, / que de um lado era amor e, do outro, esquecimento”.

Eny Miranda
Médica, poeta e cronista

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