Duelo

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Alcides, 61 anos, viúvo, professor universitário aposentado com título de doutor. Morava sozinho num bairro afastado do centro da cidade. Entre suas preferências, além de receber visitas regulares das filhas e netos, estava a boa literatura e música clássica.

Regina, 45 anos, separada do marido, sem filhos. Tivera uma vida cheia de dificuldades, mas nunca se permitiu ser vencida por elas. De origem humilde, trabalhava em casa, pespontando calçados numa máquina de costura cedida pela fábrica. Entre suas preferências, além de certos forrós que frequentava em alguns sábados à noite, estava a música sertaneja.

O que ambos tinham em comum? Um único detalhe, fio condutor desta narrativa: eles eram vizinhos; moravam em casas separadas apenas por um muro com menos de dois metros de altura. Aliás, já moravam como vizinhos há mais de cinco anos.

Alcides apreciava ouvir suas músicas enquanto tomava um bom vinho, na penumbra da sala de sua casa, com a débil e sugestiva iluminação de um abajur de canto. Regina, ao contrário, colocava seus CDs daquelas músicas sertanejas bem doídas, num volume exageradamente alto. Não bastasse isso, ainda cantava a plenos pulmões junto com a dupla. “Impressionante!”, pensava Alcides, “ela sabe de cor a letra dessas malditas canções!”

Sucede que num determinado tempo, coincidia o momento em que ambos tocavam as suas músicas preferidas. Mas Alfredo, cansado de ouvir as duplas esganiçadas interferindo nas melodias de textura fina e sutil, resolveu aumentar o som de seu aparelho. Já imaginaram? Regina e Alcides no empenho de que suas músicas estivessem num volume mais alto que o outro. E passaram a se odiar... E a sofrer, porque no fundo não se disputava um espaço etéreo para que suas músicas preferidas prevalecessem; o que se podia entender era que o estilo musical de cada um revelava no íntimo a história de vida de ambos: a música clássica de Alcides deixava à mostra sua formação cultural, acadêmica, seu estilo lhano e fino de viver, a educação aprimorada, o aconchego do lar, as mãos lisas, sem calos, o relacionamento social com pessoas de notável intelectualidade... A música sertaneja de Regina, por outro lado, escancarava sua origem humilde, sua educação escolar incompleta, o trabalho árduo da pespontadeira, sua completa ignorância quanto às manifestações artísticas de várias épocas e estilos. E o pior: cada um deles estava convicto de suas paixões e não se interessava nem um tiquinho pelo gosto musical e pela história de vida do outro.

Interessante situação, não acha o leitor?

E assim os dias iam passando à medida que os respectivos volumes das músicas vizinhas se entrecruzavam nos ares, importunando, sem dúvida, quem ali morasse e despertando a curiosidade de quem por ali passasse.

Era preciso por um termo naquela situação. Alcides tomou a iniciativa de, pela primeira vez em quase cinco anos, procurar Regina e colocar o delicado assunto em pauta. E o fez com a máxima educação e respeito. A mulher silenciou a máquina de pesponto, baixou o volume de seu aparelho e ouviu as razões do vizinho. Mesmo porque já havia iniciado um zum-zum-zum entre vizinhos incomodados com aquele duelo musical nas alturas. E da conversa surgiu um acordo, estranho mas factível: Regina ouviria suas músicas sertanejas à tarde, enquanto pespontava. Alcides ouviria suas músicas clássicas, enquanto bebericava vinhos de boas safras.

E assim as tardes, naquele local, passaram a ser embaladas por chitãozinhos e xororós; a noite era reservada para os delicados noturnos de Chopin, os contrapontos e fugas de Bach, as tocantes melodias de Debussy, Liszt, Beethoven...

O que não se sabia era que no fundo das casas de Alcides e Regina, na rua de cima, morava, também sozinho, um judeu, o senhor Samuel Rosenthal, homônimo do famoso enxadrista franco-polonês. E ele ouvia a bagunça musical já havia anos. Não gostava nem desgostava. Apenas seu lado europeu e a educação musical que recebera de seus pais, que vieram para o Brasil com o intuito de fugir das garras nazistas, o levavam a apreciar a música erudita. Mas as composições sertanejas resumiam o espírito do país que lhe proporcionara paz de espírito e espaço para ir e vir livremente. Simples assim. De forma que, após o trato estabelecido entre Alcides e Regina, o senhor Rosenthal tomou uma atitude que se tornaria hábito. À tarde, quando a música sertaneja lhe chegava aos ouvidos, punha a saborear broinhas de fubá, queijo de Minas, pamonhas, pés-de-moleque, licor de jenipapo e se deliciava com as letras que aludiam a traições amorosas. À tardezinha, banhava-se e vestia um roupão. Esticava-se na confortável poltrona de sua sala para, mais à noite, ouvir as peças da coleção de Alcides. Claro, ao lado de um bom vinho e queijo importado da região de Camembert.

Não sei como terminou essa história, mas o que me ficou na mente é que Samuel Rosenthal deve servir de modelo de comportamento àquelas pessoas radicais quando o assunto tende para gosto musical.

Everton de Paula
Acadêmico e editor. Escreve para o Comércio há 42 anos

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