A contadora de histórias

Por: Chiachiri Filho

Lembro-me com muito carinho e saudades de minhas avós. Uma era libanesa e a outra brasileira. A libanesa tinha Angelina como nome de batismo, mas todos a chamavam de Jalile. Maria Jacinta era o nome da brasileira, que nós, os netos, abreviamos para Vó Ia.

Jalile era baixinha, gordinha, simpática, comunicativa, falante, emotiva. Era uma mulher da cidade e do comércio. Gostava de conversar e comigo conversava horas e horas. As poucas palavras da língua árabe que conheço foram me ensinadas por ela. Meu tio Roberto completou o vocabulário com os palavrões .

Minha avó Maria era alta, magra, decidida, de poucas palavras e de muita energia. Era uma mulher do campo que sabia carpir o mato, tirar leite e curar os parentes, amigos e afilhados com as ervas medicinais da região.

Por estranho que possa parecer, a Sherazade não veio do fantástico Oriente das mil e uma noites. A contadora de histórias era Maria Jacinta Ferreira de Andrade, nascida no Distrito de Santa Bárbara , conhecido atualmente como Patrocínio Paulista.

Na hora de dormir, ela ajeitava os netos na cama, sentava-se num dos cantos e começava o seu encantamento. Enquanto não dormíssemos, ela não parava de contar. E era assim quase todas as noites. Contava histórias de príncipes e princesas, de cavaleiros andantes, do Almirante Balão, do Ferrabrás, do Pedro Malas-artes. O Pedro Malas-artes brasileiro , bem diferente do seu homônimo português, era velhaco, esperto, sagaz, sabido e malandro. Nas brigas com o Capeta, o demo não ganhava uma. Caía sempre nos ardis e armadilhas do Malas-artes e saía sempre derrotado e humilhado. Nas histórias de príncipes e princesas havia sempre casamentos e festas e Vó Ia terminava, invariavelmente, dizendo:

- Eu estive lá na festa. Lembrei-me de vocês e vinha trazendo uns pratinhos de doces e salgados . Infelizmente, durante o caminho, eu tropecei, os pratinhos caíram de minhas mãos e os doces e salgados misturaram-se com a poeira.

Embora um pouco frustrados, dormíamos como anjos.

Às vezes, ao deitar-me, recordo com muita emoção as histórias de minha avó. Rezo, rezo com muito fervor para que ela apareça e venha sentar-se na beirada da minha cama. Como ela não vem, eu também não durmo. Levanto-me, vou até a cozinha, preparo um bom lanche e falo para Vó Ia:

- Este a senhora não deixou cair na poeira.

Volto para a cama, durmo como um justo e sonho a noite inteira com as travessuras de Pedro Malas-artes.

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