Coqueluche

Por: Marco Antonio Soares

Antigamente as crianças não eram tão espertas como hoje, aliás, a maior parte delas era ingênua demais. Quase sempre estive junto com a maioria.

Aos seis anos, a professora entregava-nos um pequeno poema; lia, relia, aligeirava frases, abrandava palavras, pausava vírgulas, exaltava exclamações, até que declamadores e textos estivessem prontos.

Eu era miserável de estatura, usava óculos fundo de garrafa que, quase sempre, tinham uma das lentes coberta por esparadrapo, o que fazia de mim uma espécie de ET.

Todas as quintas-feiras, ficávamos em fila indiana, distanciávamo-nos, esticando o braço até o ombro do amigo da frente, postávamo-nos em direção à bandeira e cantávamos o Hino Nacional. Em seguida, um a um, subíamos no palco, que me parecia enorme, a diretora segurava o microfone, recitávamos.

Em uma dessas quintas-feiras, eu e meu amigo João fomos preparados para a pequena apresentação. O menino, bem mais alto que eu, foi primeiro, olhou em torno, fez cara de choro, conteve as lágrimas, mas o nervosismo fez tremer-lhe a voz, impôs-lhe gagueira momentânea. O rosto da nossa professora avermelhou-se, os alunos não se contiveram, as gargalhadas explodiram. A diretora, esforçando-se para esconder o sorriso, pedia respeito. Mais tarde, tentaram me explicar o significado da palavra dó, aprendi facilmente. Era minha vez, a mulher me auxiliou, subindo os degraus comigo a fim de que qualquer acidente fosse evitado, ainda pude ouvir quando ela se virou para uma de suas amigas, dizendo:

- Esse é meu coqueluche.

Tentei focar a multidão, acertando meus óculos, mas o que via era uma massa disforme, enxerguei somente meu companheiro, que estava de cabeça baixa próximo do palco. Houve silêncio, permaneci quieto. A professora gesticulou algo que eu não entendi, a multidão impaciente iniciou um burburinho que foi tomando conta do salão. De repente, tirei meus óculos, caminhei em linha reta, não demorou para que meus pés encontrassem o vácuo. Joelho e testa anunciaram meu encontro com o chão; em vão tentei erguer-me, caí novamente. Nunca ouvi tanta risada ao mesmo tempo.

Nunca mais recitei e, todas as quintas-feiras, eu era conduzido até o final do salão a fim de que os declamadores não perdessem a concentração quando me vissem. Meu amigo, em silêncio, me fazia companhia.

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