De volta aos alpendres e aos quintais

Por: Maria Luiza Salomão

Entre todas as que acendem o espírito, a chama da Curiosidade é chama olímpica, que nunca pode apagar. Quem não tem curiosidade, esteriliza a vida, sem saber. Cobiça o que o outro tem, pensando que coisas, posses, ou comodidades interiores, amores, até as dores do outro são melhores que as próprias! Invejável é a gana, o impulso, o espírito de aventura do ser curioso.

Marinheiros são miticamente curiosos, assim como os Visionários. Os Poetas! Cuidadores de humanos precisam de grande dose de curiosidade.

Quem não precisa ser curioso, se quer expandir seus horizontes, materiais ou psíquicos, espirituais?

O curioso não acha que sabe tudo. Investiga. Não se satisfaz facilmente. Quer mais, como o fogo à beira de campo seco. É um glutão, ou um gourmet. Quer saborear, diversificar, não aceita arroz com feijão todos os dias.

Minha irmã baiana é pessoa curiosa. Quando a conheci, acompanhava o marido doutorando na USP, professor da Universidade da Bahia. Professora, muitos anos de experiência, mas cansada de guerra da mesmice pedagógica.

Conhecemo-nos em uma escola paulistana, talvez a primeira a aplicar as pesquisas de Piaget em sala de aula. Ela duvidosa, eu maravilhada.

A amizade perdura, apesar da distância. Começamos, as duas, esta liça entre dúvidas e deslumbres sobre os “novos”, há 35 anos, métodos pedagógicos. Seu ceticismo interessado foi, para mim, um belo aprendizado.

Morena jambo, olhos brilhantes, negros cabelos ondulados, de óculos, dentinho quebrado e manchado, tinha sotaque até nas risadas e no jeito lento de querer compreender as coisas. Lascava um “ó, chente!”, trazendo um questionamento, que fazia a discussão tomar outro rumo. OU iniciava uma longa narrativa sobre pessoas e personagens que conheceu. A conversa adquiria, de imediato, carne e músculo, cheiro e sabor.

Cheia de causos, lasca o “escuta aqui!”...e começa uma longa narrativa. De início, não saboreava aquele estilo chamativo. Queria atalhar, à cata do núcleo da questão, mas ela dizia “repara!” e borboleteava. “Versar junto”, com-versar, pressupõe distração dos objetivos e atenção e paciência aos meios. Pressupõe fruir dos meios até o que o final brilhe em luz neon. É preciso Fé.

A baianinha tem bons ouvidos. Quem bem sabe contar estórias, ouve bem outras tantas. Expressiva, arregala os redondos olhos negros, dá uma boa risada, franze a testa, a refletir e não se avexa, não espera muito e continua dali onde a gente faz pausa ligeira, aventurando nova conversa.

Curiosidade faz o mundo rodar...desde o investigar o labirinto da alma, até o acelerar muitas voltas em redor do planeta.

Ao inibir a Curiosidade, pode se perder o apetite pela vida, e pelas intensidades.

Família e amigos andam carentes do espírito dos velhos alpendres e quintais, tão desaparecidos nas cidades modernas, onde vivemos empanturrados de informações, muitas delas inúteis. É na velha e boa conversa, íntima e verdadeira, que acendemos as curiosidades.

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