Lá e cá

Por: Eny Miranda

Abril. A Europa primavera. Entrega-se ao claro, ao cálido, à cor, à copagem: coorte que antecede o verão.

Enquanto isso, abaixo da linha do Equador, o outono se instala como se deve aqui instalar: australmente.

E o que isso quer dizer?

Que o faz de maneira sutil, porque, neste hemisfério, as diferenças entre as estações não são marcantes. A bem da verdade, tais diferenças são sensíveis apenas a uns poucos viventes, dados a sutilezas como certos sons, nuanças e odores que transitam, sobretudo, nas manhãs e tardes. Porque aqui, nesta época do ano, o que há de mais sensível pairando no ar é um som longínquo, diluído, transparente, quase inaudível, que ora canta, ora soluça - flauta em lábios de Pã; um colar de notas aquáticas, suaves, sucessivas ou justapostas, à Monet, em melancólica doçura róseo-dourada; uma cascata de tons impressionistas, que se vão apurando à aproximação de maio, quando então o ar começa a exalar (apenas ao sensório desses amantes de sutilezas) notas frutais agridoces, até atingir o seu ápice, ouro-cereja, e, depois, ceder às feições poentes, crepusculares, do vermelho que se coagula e do ouro que se acastanha, sinalizando acercamento de inverno - provavelmente azul e róseo-dourado e púrpura e ferrugem...

Ao sul do globo, a face do ano parece homogênea, a olhos distraídos; arte quase linear: sempre há sol, sempre há chuva; sempre frescor, sempre calor; sempre mar, sempre azul, sempre verde, sempre todas-as-cores...

Há que penetrar surdamente no que vai além da simples aparência. Há que conviver com ermas melodias, aceitá-las em sopro e silêncio.

Há quem prefira, por isso, ou por outros motivos, trocar de lado, de hemisfério; inverter as estações, abandonar sutilezas; manter-se ligado à bela e disciplinada borealidade do tempo, e das almas; às marcantes - quase inflexíveis - características de cada quarto de ano; às Andrômedas (damas acorrentadas), em lugar de às livres Marias. Ver as cores se desfazendo, as árvores se desnudando, depois de uma rápida explosão de cores e luzes e ouros; assistir, por longo tempo, a branco e cinza se alternando, se repetindo, dia após dia, e a branco e cinza, e contornos, se des-lineando sob vapores de frio que não abranda; e, então, à nova, rápida, explosão de luzes e cores e ouros. Presenciar a efemeridade, a fragilidade, a finitude da vida. E a sua eterna capacidade de refazimento.

Eu continuo por aqui, e não me queixo. Deste lado, as cores são perenes, mas pigmaleônicas; reflexos e aromas se transfundem, ano inteirinho, entre vasos aéreos, em manhãs que se descobrem malva ou azuis,e tardes que se vão cobrindo de túnicas voláteis - dança de sete véus e sete luzes. Aqui, flores e frutos não têm o menor pudor de se abrirem e se entregarem a olhares ou a toques; de desvelarem sua intimidade, até a última fibra de odor ou de sabor, em qualquer tempo e a qualquer hora. E que odores, e que sabores!

Gosto de receber essa dádiva, agradeço essa continuada bênção.

Quero aprender com Caeiro a manter nos olhos o espanto do primeiro olhar, o pasmo infantil da sempre novidade; a perenizar o susto da (re)descoberta.

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