Romance histórico e saga pessoal

Por: Sônia Machiavelli

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Na abertura do projeto Jornal/ Escola deste ano, saudando a educomunicadora Cristiane Parente que aqui esteve a convite do GCN, o jornalista Correa Neves Junior recuperou uma frase de Victor Hugo, enfatizando que a educação de uma criança começa com a de seus avós. Com isto chamava a atenção para a impossibilidade de improvisar valores, atitudes, hábitos, sentimentos, ética, expressões de cultura, visões de mundo. Ou, resumindo, estruturas que sustentam construções preciosas, no caso, vidas humanas plenas de possibilidades.

Se a reflexão se faz oportuna para explicar adultos produtivos, responsáveis, solidários, participativos, conscientes de seu papel na vida social, em oposição a outros que não o são, ela também me parece apropriada para entender e avaliar o destino das nações a partir de sua infância, de seus fundamentos.

Foi seguindo este caminho que Isabel Allende ergueu o último romance, A Ilha Sob o Mar, lançado no final do ano passado. Talvez influenciada por aquilo a que o mundo assistiu assustado em janeiro de 2010, quando o Haiti devastado por terremoto de grande magnitude exibiu todas as fraturas de país esfacelado, a romancista resgatou e reconstruiu, em 476 páginas, o tipo de colonização que nas Antilhas se caracterizou pela barbárie. O processo caótico, cruel e profundamente desrespeitoso de espanhóis e franceses, a partir do século XVI, pode explicar em grande parte o atraso neste século XXI.

A ilha do Haiti, foco da ficcionista, transformou-se desde os primórdios da colonização em palco de horrores. Primeiro sob domínio espanhol; depois, a partir de 1674, dos franceses, que a dilapidaram e dizimaram o que restava da população nativa. Para substituí-la, trouxeram os negros, da Guiné e de regiões próximas. Estes escravos foram explorados de todas as formas imagináveis, enquanto as plantações de cana e os engenhos de açúcar se multiplicavam rapidamente. Para falar do processo impiedoso desta colonização, mas também para contar uma história de resistência pessoal, Isabel Allende criou duas linhas narrativas na construção do romance. Numa delas, o narrador onisciente em terceira pessoa faz o relato dos acontecimentos históricos protagonizados por alguns franceses e personificado na figura de Toulouse Valmorain. Na outra, a escrava Zarité é quem conta sua via crucis da infância à maturidade. Os capítulos se alternam e os discursos acabam convergindo na mesma direção. O do narrador onisciente oferece em cifras, datas, números e dados a informação histórica cronológica; o da mulher se constrói com referências religiosas, erotismo, sensualidade e uma vaga percepção dos fatos históricos onde sua participação às vezes decisiva é negada pela voz dominante. Das palavras dos dois narradores emergem outros personagens além dos citados: Gambo, escravo guerreiro; Tante Rose,a curandeira; Parmentier, o médico; Rosette e Maurice, as crianças; Violette, a cortesã; Sancho del Solar, o espanhol bon vivant. E as figuras históricas, como Toussaint Louverture, ex-escravo que se transforma em governador-geral depois da rebelião de 1794. Neste ano o Haiti se tornou o primeiro país do mundo a abolir a escravidão.

Robusta com as palavras, hábil na construção de imagens, plástica na composição de personagens, criativa na elaboração de enredos que se entrecruzam e movimentam a trama, a escritora mantém o leitor atento e interessado. A saga de Zarité, que nos momentos de agonia apela para loas, calendas, bambouses e vodus da sua rica mitologia tribal, comove pelo que nos enseja pensar a respeito de pessoas que não se entregam, mesmo quando as dificuldades parecem intransponíveis. Este talvez seja o maior apelo do livro, a humanidade de Zarité. Confusa entre dois mundos tão diferentes, onde a barbárie do europeu impede qualquer tipo de diálogo minimamente civilizado com a cultura africana, ela não desiste de lutar, mesmo quando sua própria vida corre risco. Sobrevivente, ajuda a contar esta história que foi de muitos. É dela a palavra final no livro.

No seu papel de recriar mundos, a escritora reconstrói um Haiti que tinha tudo para ser um lugar desenvolvido. Guiando o leitor por canaviais e selvas, montanhas e charcos, racismo e ignorância, ganância e violência, Allende nos convida a pensar nas causas que levaram o país a ocupar hoje um dos últimos lugares no ranking de desenvolvimento humano. A ilha a que alude o título, espaço mítico de paz nos sonhos e transes de Zarité, e ao qual se chega depois de muitos sofrimentos, continua submersa...


FORMAÇÃO DE JORNALISTA

Isabel Allende

Isabel Allende Lhona nasceu em Lima, em agosto de 1942, mas costuma dizer que é chilena por formação e convicção. Na verdade, viveu pouco no Peru, onde seu pai, primo irmão de Salvador Allende, foi diplomata. Passou a infância e a juventude em Santiago, e ali desenvolveu carreira de jornalista.

Seu primeiro romance, A casa dos espíritos, lançado em 1982, fez imenso sucesso, ganhou reconhecimento de público e crítica, foi transposto para a telona pelo diretor Bille August, que convidou para protagonizar a história Jeremy Irons e Meryl Streep. O tema da morte reapareceria dois anos depois em outro romance, De amor e sombras. Eva Luna é de 1987 e O plano infinito, baseado na história da família de seu marido, de 1991.

Neste ano sua filha Paula adoeceu, vítima de um mal chamado porfiria. A descrição da evolução desta moléstia, o definhamento de Paula, seu processo de depuração, que havia começado antes mesmo da manifestação da doença que a mataria, são elementos que Isabel leva para o romance Paula, de 1992, divisor de águas na sua vida e na sua literatura: “ Eu não confio mais no amanhã, na minha cabeça tudo pode estar perdido em um minuto”, passou a dizer com frequência após a morte da jovem.

Sua atividade espraia-se em muitas direções, diferentes gêneros : A Filha da Fortuna, Retrato em sépia, Inês da minha alma, A soma dos dias, A ilha sob o mar (romance); Meu país inventado, Uma tribo de novela ( memória); A porta de porcelana, O pequeno ovo frito e a maçã congelante( contos); O embaixador, Os sete espelhos, Os tomates de Fábio Cagón (teatro) . E outros, inclusive ficção para adolescentes.

É a escritora latino-americana mais lida no mundo hoje.

Serviço

Título: A Ilha Sob o Mar
Autora: Isabel Allende
Gênero: romance
Número de páginas: 467
Editora: Bertrand Brasil
Onde comprar: submarino.com.br

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