Sala de espera

Por: Chiachiri Filho

Salas de espera são sempre desagradáveis, quer sejam de advogados, dentistas ou médicos. Consultório médico é pior ainda: há sempre um clima de expectativa, apreensão e temor .

Porém, o consultório do Dr. Walker era muito diferente. Dermatologista de renome, Professor da Escola de Medicina da USP, atendia num prédio situado numa das travessas da Avenida Paulista. Tempos atrás, fui consultá-lo. Havia um ar misterioso no seu local de trabalho. Uma música muito estranha invadia o ambiente com sons misteriosos semelhantes aos ruídos de uma floresta ou aos gemidos de duendes. Nas paredes, havia figuras enormes do Fantasma, conhecido personagem das histórias em quadrinhos. Não havia a tradicional secretária para atender os pacientes, tomar conta do telefone e cobrar as consultas. Quanto ao pagamento das consultas, a filosofia do Dr. era esta: “pague se puder ou quiser”.

De repente, saindo do seu consultório, o Dr. Walker foi até a sala dos pacientes os quais cumprimentou com cordialidade. Falou com um e com outro. Contou das suas saudades do tempo em que se podia andar tranquilamente pela Avenida Paulista sob a fina garoa de São Paulo. Dirigiu-se a uma das pacientes e lhe perguntou se sabia fazer chá. À resposta afirmativa da senhora, falou apontando para uma pequena cozinha:

- Então faça um chá para todos nós. A tarde está um pouco fria, não é?

Voltou para o consultório. Logo depois, entrou um menino para ser examinado. Daí a pouco , ele saiu gritando apavorado:

- Mãe, mãe! Esse médico é doido.

A mãe acalmou o menino e tudo se resolveu bem.

Meio desconfiado, chegou a minha vez de consultar. Entrei. Colocaram-me sentado num banquinho e, sob o calor de uma luz, começou a inquisição. Parecia um interrogatório policial. Eu estava rodeado por várias pessoas que, pelo ruído, escreviam incessantemente em seus bloquinhos. As vozes, em tom baixo, misturavam-se e dava para ouvir línguas estrangeiras. Percebi logo que eram alunos do curso de pós-graduação do Dr. Walker. Percebi também que o sotaque do médico era muito semelhante ao meu e, numa pausa do interrogatório, lancei também as minhas perguntas sobre as suas origens. E ele me disse que era mineiro, natural de Passos. Walker era um apelido que significava “o Passeador”, “o Caminhante”, cognome advindo do seu costume de andar pelas ruas de São Paulo numa época de segurança e garoa.

Despedi-me do Dr. Walker na certeza de que jamais me esqueceria de sua figura, do seu comportamento e de sua mineirice.

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