Marisol

Por: Mauro Ferreira

Naquele início dos anos 60, usando calças curtas, eu cortava os cabelos (ainda tinha muitos) no Roberto Maniglia, barbeiro que mantinha um pequeno salão na rua do Comércio, acho que onde depois funcionou por muitos anos a Objetiva Social do Elias Attiê, um dos grandes fotógrafos da cidade. O Roberto usava uma máquina moderna e esquisita para aparar as melenas quase a zero, que nos deixava parecidos com recrutas. Eu tentava não dormir na cadeira, o que era infalível, pois bastava a primeira tesourada que eu começava a cair nos braços de Morfeu e só acordava com o cheiro do óleo de quinino que encerrava o corte.

Foi ali, lendo uma revista Cruzeiro, que vi pela primeira vez uma foto da Marisol, uma pequena lourinha espanhola, atriz e cantora, pouco mais velha que eu. Fiquei encantado, diria apaixonado, porque quase não havia louras em Franca. As tinturas espetaculares de hoje, que mantém “negro corvo” o bigode do Sarney e a cabeleira dos ditadores árabes ainda não tinham sido inventadas.

Logo depois, vi o anúncio de um filme da Marisol para a matinê do cine São Luiz. Atormentei minha mãe para dar o dinheiro e assistir o filme de qualquer jeito. Depois daquele, vieram alguns outros, mas logo desapareceu, eu cresci e não me lembrei mais dela. Até que recentemente me deparei com um filme do premiado diretor espanhol Carlos Saura estrelado por Pepa Flores, ninguém mais nem menos que a lourinha Marisol que iluminou e aqueceu as tardes frias da minha infância na rua José Bonifácio. Na internet, encontrei várias fotos dela, inclusive uma peladinha, o que não passava pela minha cabeça nem no melhor dos meus sonhos ingênuos e infantis daquele tempo. Hoje, afastada dos palcos, ela vive tranqüila numa pequena cidade da Catalunha, identificando-se como ainda comunista.

Ela formou, ao lado de Pablito Calvo e Joselito, um trio de crianças artistas espanholas que encantou o mundo latino com seus filmes e canções. Pablito Calvo foi o menino-prodígio de “Marcelino, pão e vinho”, filme preto & branco que passou no cine Odeon e que assisti influenciado pelas catequistas e padres espanhóis da igreja matriz. Cheguei a colecionar um álbum de figurinhas do filme. Pablito, depois deste filme, não emplacou a carreira artística e virou engenheiro. Faleceu recentemente.

Já Joselito, que fez dezenas de filmes, não conseguiu manter-se depois. A voz afinada da criança, pelo adiamento de um tratamento médico, perdeu-se na adolescência e tudo acabou, ele inclusive não cresceu fisicamente. Adulto, foi preso e condenado por tráfico de armas e drogas, permanecendo cinco anos preso na Espanha.

Olhar o passado, verificar o que aconteceu com os outros contemporâneos, é sempre um susto, pois nossas rugas e a velhice vêm aos poucos, não a percebemos no nosso próprio espelho, a não ser pelo reconhecimento, nos outros, de nossa própria idade. Como diz o mestre Niemeyer, a vida é um sopro.

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