Sobre metamorfoses

Por: Maria Luiza Salomão

“não sigam ninguém, que estão todos à procura também.”
Martha Medeiros


Ouço coisas do tipo: bordar, caminhar, pintar, ir ao shopping, cortar cabelo, dançar, escutar música é uma terapia. Não duvido, mas estranho. Muitos grupos de apoio, sem profissionais específicos psicoterapeutas - produzem benefícios terapêuticos. No entanto, quem já teve a experiência de fazer um bocado de tempo uma psicoterapia, sabe a diferença entre a psicoterapia propriamente dita e outras atividades que mobilizam afetos, mas não da mesma maneira que o trabalho psicoterapêutico.

Há um caminhar no meio da mata da Ignorância que é árduo e talvez impossível sem a companhia de alguém experiente. Penso na relação antiquíssima, no Oriente, entre o Mestre e o seu Discípulo.

O que acontece nesta relação especial Mestre e Discípulo, Terapeuta e Paciente - não é uma transmissão intelectual de conhecimentos. Há uma travessia, em parceria, que leva o discípulo a conhecer os passos do Mestre, e que o leva a encontrar formas de tornar o Mestre dispensável, ao se tornar capaz de pensar, e reconhecer a sua forma de expressão, ao modular (e modelar) a visão de mundo que o revela a si mesmo, e atingir outros mundos, ao mudar sua posição sob o Sol.

Parece necessário, para parir o Discípulo que-não-mais-segue-o-Mestre, ter ao lado o parteiro, capaz de acolher (e consentir), sem agressão, os seus atos, pensamentos, sentimentos, palavras e obras, em atitude de respeito e compaixão. A mãe e o bebê é o primeiro modelo de relação, arcaica forma de criação de humanidades. Ela modula e molda no bebê, involuntariamente, atitudes mais do que comportamentos. Valores estéticos mais do que uma Moral. Transmite, de modo inconsciente, o seu melhor e o seu pior, transmite sua maneira de pensar e sentir, mais do que ideias e sentimentos.

Não há atalhos para as metamorfoses da alma. O esforço, o trabalho, a persistência, a determinação, a devoção ao processo do aprendizado são parte de uma qualidade de relação. Aprendemos com nossas mães pela força do Amor e pela premência de sobrevivência.

Metamorfoseamos depois de repetidas e múltiplas tentativas, se e quando necessitamos mudar, quando a água bate no nariz. Basta, para a muda, a acolhida de um só gesto que, perdido, procurava em vão o reconhecimento. Encontraremos o ser acolhedor, o parteiro, por força da sobrevivência, ou da escolha. No Oriente se diz - quando o discípulo está pronto, o Mestre aparece.

Acrescento ao dito o seguinte: é neste precioso e preciso encontro que tudo pode começar a metamorfosear.

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