Gabriela Mistral, o necessário resgate

Por: Sônia Machiavelli

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“Todas íbamos a ser reinas/ de cuatro reinos sobre el mar: / Rosalia com Efigenia/ Y Lucila com Soledad// En el Valle de Elqui ceñido/ de cien montanãs o de más/ que como ofrendas o tributos/ arden en rojo y azafrán. // Lo decíamos embriagadas/ y lo tuvimos por verdad/ que seríamos todas reinas/ y llegaríamos al mar(...)”

Estes versos fazem parte do poema “Todas íbamos a ser reinas”, de Gabriela Mistral, traduzido em doze idiomas e inspiração para recente ensaio sobre gênero lançado em 2002 e assinado pela jornalista chilena Nuria Varela. Formado por dezessete quartetos, o poema faz parte do livro Tala, considerado pelos críticos a obra onde o domínio do ofício poético, da linguagem e das metáforas singularizaram definitivamente Gabriela Mistral no contexto da literatura de língua espanhola. Sete anos depois da publicação, em 1945, ela receberia o Prêmio Nobel, o primeiro a ser concedido a um escritor da América do Sul. Era então já muito conhecida em seu país onde havia publicado quatro títulos, como se pode conferir ao lado. Depois viriam mais quatro. A notoriedade, curiosamente, não a imortalizou como seria de se esperar. No Chile do século XXI, país onde o índice de analfabetismo é de 0,0001%, todos os jovens conhecem Neruda, mas bem poucos sabem dizer quem foi Mistral, o que soa estranho às gerações mais velhas. Alertados
sobre o inexplicável silêncio, alguns nomes importantes vêm se movimentando no sentido de fazer o resgate da obra e da poeta, ambos olvidados onde mais deveriam ser lembrados. A ex-presidente Michelle Bachellet, confessa admiradora da poesia de Mistral, entregou em 2007 ao museu de Vicuña, terra natal da poeta, todos os escritos dela que se encontravam fora do país, especialmente nos Estados Unidos, onde morreu. E agora, para comemorar em 7 de abril os 122 anos de seu nascimento, a respeitadísma editora Alfaguara está lançando uma antologia preparada por Cedomil Goic. Dela participam críticos e professores de literatura. Nas 758 páginas estão reunidos ensaios, prosa e poesia. Há notícia de que já se trabalha a versão para o português. Voltando ao poema de abertura, que só não publico na íntegra por absoluta falta de espaço, mas pode ser acessado facilmente na internet, ele sugere um passeio àquelas regiões lúdicas percorridas na infância e das quais nos lembramos sempre como uma possibilidade de conforto. Lucila é a própria Mistral e o vale do rio Elqui o lugar onde nasceu e viveu até os vinte e cinco anos. Tala, de 1938, é um livro onde as memórias infantis mobilizadas são o recurso para falar da mãe que tinha morrido nove anos antes. Toda a primeira parte chama-se Muerte de mi madre; mas o tema já havia surgido muito antes, pois seus Sonetos de la Muerte, que reapareceriam em Desolación, em 1922, já estavam escritos em 1914.

Penso como muitos que a infância revive geralmente velada na obra dos poetas e ficcionistas, e em alguma dimensão a alimenta. No caso de Mistral, irrompe de forma explícita em muitos poemas. O Vale de Elqui, no nordeste do Chile, onde ela viveu até à juventude, é uma região mágica. Mais que o lugar onde se produz “o melhor pisco do mundo’, destilado de uva muito apreciado por chilenos e peruanos, é também a região do planeta onde a observação astronômica é tida como superprivilegiada. Os “trezentos dias de sol e as trezentas noites estreladas” são o grande apelo de marketing da municipalidade, que prevê para 2012 a inauguração do seu quinto observatório: o “Gran Telescópio para rastreos sinópticos.”

Vinhas, estrelas, maternidade e infância são signos recorrentes na poesia de Mistral, toda ela variação do tema amor: à natureza, a Deus, à mãe, à criança. E ao jovem noivo, que se matou e a deixou mergulhada primeiro em perplexidade, depois em solidão que vai se tisnando de ternura até acolher um amor universal que preenche seu vazio de maternidade.

Amiga de Cecília Meirelles, Gabriela Mistral poderia recorrer a um pensamento da escritora brasileira para definir o mais intenso sentimento que permeia sua obra desde Tala, cuja tradução para o português é Poda: ‘ aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira’. Acredito que afinidades eletivas podem explicar amizades e colocar mais luz em poemas e livros.
 

PRIMEIRO NOBEL DA AL

Gabriela Mistral

Autora da poesia mais importante escrita no Chile antes de Pablo Neruda, seu nome literário, como o dele, é também um pseudônimo: só os biógrafos aludem ao oficial Lucila de Maria del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga. Para todos é Gabriela Mistral, a primeira escritora da América Latina a receber um Nobel em 1945.

Nascida em Vicuña, em 7 de abril de 1889, foi poeta, prosadora, educadora, diplomata e das primeiras militantes femininas em seu país. Teve infância marcada pela ausência do pai que abandonou a família. A juventude, pelo suicídio do noivo. A maturidade, pela morte da mãe. São três fatos que se refletirão na sua poesia em temas como morte, solidão, religiosidade.

Educada em sua cidade natal, começou a trabalhar como professora primária aos 15 anos. Dez anos depois ganhou visibilidade ao vencer um célebre concurso de poesia em Santiago, os Juegos Florales, participando com Sonetos de la Muerte. Assinou-os como Gabriela Mistral, escolha que homenageava seus poetas de eleição: o italiano Gabriele D’Annunzio e o provençal Frédéric Mistral.

O Nobel a levaria a viajar pelo mundo, representando o Chile em comissões culturais. Entre suas obras destacam-se os títulos Sonetos de la Muerte (1914), Desolación (1922), Lecturas para Mujeres (1923), Ternura(1924), Nubes blancas y Breve descripción de Chile(1934), Tala (1938), Antologia (1941), Lagar(1951), Recados a Chile (1957), Poemas de Chile (póstumo). Morreu em Nova Iorque no dia 10 de janeiro de 1957.

Serviço

Título: En verso y prosa
Autora: Gabriela Mistral
Editora: Alfaguara
Número de páginas: 758
Quanto custa: R$ 38
 

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