Boia-fria

Por: Chiachiri Filho

Se o convidarem para almoçar ou jantar na casa de uma família rica, não se regozije. Sem dúvida, a comida será farta e variada. Haverá carne de vaca, de porco, peru, peixe, faisão e vários tipos de saladas. Mas a preocupação com a dieta, com o colesterol, com a aparência física, resultará numa refeição insossa, sem tempero e sem sabor.

Certa vez, em São Paulo, fui convidado para almoçar na residência de meus padrinhos. Moravam na Rua México, nos Jardins. Cheguei de paletó e gravata e fui muito bem recebido. Sentamo-nos numa grande mesa redonda coberta por uma finíssima toalha e a refeição passou a ser servida. Logo de início, embaracei-me. Embaracei-me com os talheres de prata. Havia tantos garfos e garfinhos, colheres e colherinhas, facas e faquinhas que eu não sabia por onde começar. Peguei um garfo de tamanho médio e passei a comer um saborosíssimo quibe cru. Serviram também tabule, quibe assado, charutinho de folha de uva, arroz bichiri e etc. A comida estava ótima. Em casa de árabe, mesmo rico, a comida é sempre boa. Além dos talheres e dos copos de cristal, o paletó e a gravata atrapalhavam a minha deglutição . Por mais agradável que estivesse o ambiente, havia para mim uma certa formalidade naquela casa e naquela mesa.

Gosto de comer à vontade, em mangas de camisa e tendo às mãos apenas um garfo e uma faca. Por isso mesmo, eu via com uma certa inveja, quando ainda adolescente, a simplicidade das refeições de um trabalhador rural. A comida vinha num caldeirãozinho esmaltado cuja tampa era presa por um elástico da câmara de ar de uma bicicleta. Dentro, metade era feijão e a outra metade arroz. Em cima havia ora pedaços de carne de porco, ora frango ou ainda torresmo. Carne de vaca era raro. Lá pelas 9,30 da manhã, o roceiro procurava a sombra de uma árvore, sentava-se em suas raízes, fechava a mão no cabo de uma colher e mandava a gororoba goela abaixo. Depois, bebia uma água fresquinha conservada na cabaça e completava com um gole de café de uma garrafa de guaraná tampada com uma rolha de sabugo. Fumava um cigarrinho de palha, descansava mais um pouquinho e voltava para o batente.

Sua comida era simples como simples era a sua vida. Eu gostava daquela simplicidade e várias vezes , para matar a vontade, comi num caldeirãozinho esmaltado carinhosamente preparado por uma tia.

O almoço na Rua México ficou na minha memória. Porém, a refeição mais descontraída e o sabor mais forte foi o do arroz com feijão recoberto por pedaços de carne de porco contidos num caldeirãozinho esmaltado comidos por mim à sombra de uma árvore, na beira de um ribeirão, vestindo apenas uma bermuda e uma camiseta.

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