Aula

Por: Marco Antonio Soares

São seis horas. A mãe caminha em direção à cama da filha, observa-a por alguns segundos. Parece que um cansaço enorme pesa sobre o corpo da criança. O dia está frio, a chuva agita as venezianas. “Uma falta somente”, ela pensa, mas a consciência rapidamente expulsa a ideia, fazendo-a pousar a mão sobre o ombro da menina que, com os olhos ainda fechados, senta-se, passeia a mão pelo criado até que a ponta de seus dedos encontra os óculos, põe-se de pé.

Não tem fome, no entanto a mãe insiste para que coma um pedaço de bolo, tome leite que, vez ou outra, queima-lhe a língua. A mulher impõe pressa às ações da filha, repete que horário é sagrado, ademais os portões se fecham impreterivelmente às 7h10. Mais uma vez ajeita o cabelo da menina, confere objetos, blusa. A mulher não sabe o porquê, mas aquela pequena despedida lhe provoca comoção.

Não demora até que a menina chegue à porta da escola, os portões estão abertos, nunca os viu cerrados pela manhã, as palavras da mãe percorrem-lhe o pensamento: —- Horário é sagrado.

Aos poucos, os 45 alunos preenchem as carteiras que estavam vazias. A sala, antes silenciosa, vai enchendo-se de ruídos até que um turbilhão de vozes povoa todo o ambiente. A professora dá bom-dia, só os alunos da frente ouvem, alguns respondem. De repente, o enorme quadro está cheio de letras e números, iniciam-se as explicações, mas o barulho não cessa, tudo fica confuso, meias informações chegam aos ouvidos dos que se sentam à frente. De repente, um grito, quase todos ficam em silêncio, um celular toca, as risadas ecoam, todos, ao mesmo tempo, se dizem inocentes. A professora ameaça tomar o aparelho, há um princípio de discussão, que só acaba quando a professora desiste de sua ação, soa o sinal, a aula termina.

A mãe, como sempre, espera o retorno da filha junto ao portão da casa, beija-lhe o rosto, descansa-lhe os ombros da pesada mochila, serve-lhe o almoço.

Em seu quarto, a menina passa as mãos pelas paredes, percorre os olhos vagarosamente por todos os objetos, saboreia cada instante de silêncio, retira uma folha avulsa de dentro de uma gaveta e se põe em cantiga: —— Três vezes um... três, três vezes dois... seis... Do lado de fora, a mãe agradece a Deus por não ter deixado a filha faltar à aula daquele dia.


 

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