Da Vinci das Três colinas

Por: Mauro Ferreira

Meu compadre Paulo Nehemy é um arquiteto na cidade cuja atuação e trajetória o transformou numa espécie de Leonardo da Vinci local por suas invenções, onde se incluem a casa-panetone e um escoramento metálico para lajes e muitas tiradas cheias de um humor que só são compreendidas bem depois.

Uma das suas melhores passagens foi quando o prefeito pediu para a companheira que coordenava a participação popular do governo fazer uma reunião com o pessoal da região do jardim Aeroporto sobre a abertura de uma avenida nos fundos do aeroporto da cidade. Uma norma da Aeronáutica impedia a solução mais econômica e simples, e não havia recursos para fazer outro tipo de obra. O prefeito queria atender o povo, mas ficava entre a posição técnica, contrária à obra, e a política, que atenderia o desejo e a necessidade dos moradores.

A companheira da participação tinha uma visão simplista destes processos. Vinda do ambiente sindical, às vezes usava uma agressividade verbal imprópria com o povo, como se sentisse a única porta-voz do poder exercido pelos trabalhadores explorados que pela primeira vez comandavam a cidade.

Quando o debate começou, ela entrou de sola para fazer valer a sua “otoridade”, disse que não seria possível executar a obra do jeito que o povo queria, pois se acontecesse um acidente fatal na avenida, haveria um problema enorme, o prefeito poderia ser até cassado por isso. Presente à reunião, o arquiteto pede a palavra. Ela cede, imaginando que ia ajudar a convencer o povo.

Ele diz: “olha, se acontecer um acidente fatal, o maior problema não é o prefeito ser cassado, é o problema do morto e da sua família.” Entre gargalhadas, a reunião teve que ser suspensa até recompor a ordem no recinto. Depois disto, o prefeito resolveu fazer a obra, que está lá até hoje.

Depois, a mesma companheira foi comandar outro setor. O arquiteto desenvolveu para ela um projeto, mas tinha dificuldades para receber os honorários. Combinava uma data para pagamento, ela adiava, cada vez com uma excelente desculpa. Numa destas ocasiões, ao se despedir após mais uma combinação desfeita, uma funcionária e a companheira despediram-se dele, a funcionária disse: “vai com Deus, arquiteto”. Ele respondeu, “até logo, fiquem também com Deus”. A companheira se surpreendeu: “ué, arquiteto, você acredita em Deus?” E ele, “acredito, afinal ele nunca mentiu pra mim”.

Por falar em Deus, foi este mesmo arquiteto que, ao ouvir no café Globo da praça Barão a frase “quem dá aos pobres, empresta a Deus”, respondeu na lata: “é, e quem empresta aos pobres, dá...adeus”.

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