Cinema e Psicanálise: Chocolate, presente antecipado de Páscoa

Por: Sônia Machiavelli

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Sem interrupção e com público constante, o evento Cinema e Psicanálise entrou em sua terceira edição francana. Desde seu início, 2009, foi pensado, elaborado e concretizado por comissão de profissionais da área de Psicologia que atuam na cidade. São psicólogas e psiquiatras que objetivam levar o pensamento psicanalítico a todos os interessados em arte e enriquecimento interior, a exemplo do que ocorre em outras cidades do País. A aproximação desejada e possível subentende, é claro, que a parte convidada aceite o convite, deseje participar. Via de mão única inviabiliza este tipo de parceria. E esta última é palavra-chave da proposta, a começar pelas afinidades que aproximam as organizadoras, enquanto grupo, e os participantes enquanto espectadores e ouvintes.

Ana Marcia V.P. Rodrigues, Ana Regina M. Caldeira, Débora Mellem, Fátima M.C.R. Santos, Josiane Oliveira, Sonia M. Godoy , todas filiadas à Sociedade Brasileira de Psicanálise/ Ribeirão Preto, e Maria Luiza Salomão, da SBP/ São Paulo, deram-se as mãos para mostrar ao público que comparece mensalmente aos sábados à Sede Campestre do Centro Médico, filmes de qualidade para serem vistos, analisados, comentados. A troca de observações torna-se combustível na alimentação das ideias e do próprio projeto.

Acredito que todos têm saído dos encontros com a certeza de que estes promovem, junto à fruição estética, um descortino das infinitas possibilidades de existir. Beleza e verossimilhança se enlaçam na ficção para que espectadores se permitam refletir sobre outras formas de viver, este exercício que nos demanda olhares mais plurais e menos superficiais para que a existência não seja apenas soma de tempo transcorrido. Toda vida merece ser multiplicação de experiências que desvelem à alma paisagens mais amplas, desdobráveis. Isso significa busca constante e árdua, e bem pouco tem a ver com entretenimento. Nossa vida vale o que nos custa de esforços.

Tenho embarcado nas sessões do Cinema e Psicanálise e delas retornado me sentindo um pouquinho mais habilitada ao entendimento do humano. Também mais aberta às diferenças que singularizam mas tantas vezes, e infelizmente, também opõem indivíduos, grupos, conceitos. No mundo das diversidades, é mais comum do que se imagina encontrar quem não suporte diferenças.

Todo filme, antes de tudo sequência de imagens, oferece-nos a oportunidade, em primeiro plano sensorial, de acompanhar uma história. Como a literatura e todas as outras artes, o cinema, quanto mais rico em signos, mais leituras condicionará. Assim, o filme de hoje, Chocolate, que Maria Luiza Salomão resenha na página 7 deste caderno, comporta inúmeras interpretações. Débora Mellem, que ontem falou a respeito aos leitores do Comércio em entrevista para o caderno Artes, vai analisá-lo nesta tarde, logo após a exibição, prevista para começar às 14h30. O público, como sempre, dará a sua contribuição.

Quem for ao Centro Médico, poderá voltar para casa com a impressão de ter recebido um presente antecipado de Páscoa neste final de Quaresma, notação temporal importante na história mostrada pelo diretor Lasse Hallstrom. A festa religiosa e o filme nos convidam a refletir sobre transformações e renascimentos, pequenos milagres que pontuam o cotidiano dos que se deixam tocar pelos afetos.

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