Saudades de que mesmo?

Por: Everton de Paula

Pronto, já era a terceira rodada de chope. Agora, daqui pra frente, ninguém ouve mais ninguém enquanto todo mundo falava ao mesmo tempo. Futebol, política, os conflitos no Oriente Médio, a salvação do planeta, Brigite Bardot...

- Brigite Bardot! Santo Papa, mas quem falou em Brigite Bardot?

- Fui eu, por quê?

- Cara, ela já morreu...

- Ê, ê! Num morreu não... Está um pouquinho acabadinha, mas ainda traz nos olhos...

- ... Miopia e remela de gente velha!

E virou aquela confusão. Mais chope. Já era a quinta rodada. Momento perigoso, pois é a partir de então que os homens passam a confessar seus mais recônditos segredos. Só que são poucos os ouvidos. Até chegar a hora da nostalgia.

- Você lembra da escalação do Santos em 1968?

- Claro; o ataque era formado por Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Quer mais? Dou o ataque da seleção brasileira de 1958: Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagalo...

- Ai, que miséria, Pelé outra vez! Se ainda fosse uma Sarita Montiel...

- Ou Doris Day. Ou ainda aquele que fez o papel de Ben Hur...

- Epa, homem não, só se for jogador de futebol...

- Ou lutador de boxe; vai me dizer que você nunca apreciou Eder Jofre, o galinho de ouro...

- Vem cá, falando em galinho, você lembra daquela musiquinha do Jânio Quadros quando era candidato a presidente ? Num tinha um galinho no meio?

- Quá, quá, quá... Não era galinho, era um rodinho que limpava a sujeira da corrupção...

- Vocês estão bêbados. Nem galinho nem rodinho, era uma vassourinha que a gente punha na lapela do paletó...

- Cumé qui é?

Agora a fala já era a da sétima rodada de chope. Pastosa, mas ainda compreensível. Mais ou menos, eu acho.

Saiu de tudo: as marchinhas dos carnavais passados, o lança-perfume, bicicleta com farol a dínamo, os famosos bailes dançados com rosto colado; as brincadeiras de escola, a primeira namorada, as farras às escondidas no tiro-de-guerra, as matinês de domingo, a troca de gibis; a primeira vez que dirigiu um automóvel, as serenatas, os porres homéricos nas madrugadas de sábado, o tempo de faculdade; o primeiro serviço, as partidas jogadas de futebol de campo e salão, o clube esportivo e a piscina; as fanfarras de escola, as excursões, a segunda namorada, os jogos de sinuca, as músicas das décadas de 60 e 70...

Mal e mal conseguimos ratear a conta. Cada um, sessentão, tomou o rumo de sua casa esforçando-se por imaginar a explicação de tanta demora à patroa.

No dia seguinte, já refeito do começo de bebedeira e após um reanimador café da manhã, pus-me a relembrar as conversas soltas da noite passada.

Observei que havia um fio condutor daquelas lembranças: a saudade.

Pensando mais: não eram propriamente saudades dos fatos ocorridos, mas uma enorme e invencível saudade do vigor de uma juventude que não ostentamos mais!

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