Coreografia de nós dois

Por: Téo Lopes

126949

A música começa em seus olhos, que dançam, dois pra lá, dois pra cá. No restaurante, você olha o prato, o refrigerante, a fumaça, o garçom, o inesperado cachorro, o cigarro, os carros lá fora, o menino e a menina da porta dos banheiros... Mas não me olha. Eu tento convidá-los para a dança, aproximo meus cotovelos de você, desenho um pequeno sorriso e te lanço uma pergunta bem humorada, mas seus olhos refrigerante, fumaça, garçom, cachorro, cigarros, carros, menino e menina. Te chamo pelo nome, em seguida pelo apelido, depois por meu amor, mas você não acha graça, você deixa seus olhos cachorro carros fumaça refrigerante e todas as outras incontáveis coisas que não são eu.

Nessa nossa dança, você está sempre numa extremidade do palco e eu na outra. Assisto seus olhos por aí, contemplo suas mãos manipulando ritmos que não me incluem: elas chamam panelas para a dança do fogo, sincronizam roupas para os ventos do varal, catam remédios para a gripe como quem cata feijão para a janta, batem palmas na perseguição aos pernilongos. São ritmos ás vezes alucinantes: uma mão na fralda outra na pomada, pega a vassoura, segura a bucha, assusta os cabelos, acaricia o bebê, segura a tampa do liquidificador, calcula as moedas, rala o queijo, desfaz-se das unhas, anota recados, folheia fofocas, espreme espinhas e por fim, com extrema delicadeza, num movimento harmonioso e preciso, apaga a luz do quarto com a ponta do dedo e vira o corpo e o rosto com o desprezo do cobertor.

Há sempre essa distância ridícula que nos separa. Quando tento, com belos e acrobáticos saltos, aproximar-me do seu lado do palco, você começa a trazer obstáculos para a dança. Então seu pai, sua mãe, suas tias, suas vizinhas, suas colegas, seus amigos, seus cremes, seus temperos, suas roupas e seus chiliques iniciam uma série de performances entre você e eu. Com apenas dois passos ao seu encontro, tropeço num pai, numa tia, numa colega. Mesmo quando você tenta me chamar, mesmo quando, por um segundo, seus olhos em mim, meus pés em mãe, amigos, roupas, cremes, então seus olhos novela, chão, cortina, quadro torto na parede, foto esquecida na mesinha e todo o resto da casa que não é eu.

Os sons se multiplicam. As músicas são trocadas. A vida continua e aí um parto, dois partos, três partos, põe a mão na cintura, respira, e uma virose, duas viroses, três viroses, dá uma rodadinha, compra um remedinho, um sarampo, duas cataporas, treze diarréias, quarenta e oito prestações, arrisca na loteria, arrisca no santo e pra terminar uma pneumonia, só uma pneumonia, basta uma pneumonia para transformar o palco num velório, um único velório com uma morte, um enterro, três filhos, dois pra mim um pra Deus, e nos curvamos não para agradecer os aplausos, mas para esconder o sofrimento, e o seu fica mais bem escondido pois seus cabelos são mais compridos e a música agora está toda em seus cabelos enlutados, cabelos que não me deixam ver seu rosto, eu tento andar e meus pés em seus cabelos, os seus olhos também parados, só cabelos, não mais dispersos por aí, só cabelos, e os longos fios se mexem para a direita, depois se mexem para a esquerda num movimento sinuoso e seu cabelo fica parecendo aquelas ondas do mar que se parecem com cabelos, e eu fico tentando atravessar todo o oceano que nos separa para colocar minhas mãos em seu queixo e levantar essa sua cabeça.

Agora não há mais tempo. Não suporto mais essa distância ridícula. Eu preciso pôr seus olhos em mim. Quero compartilhar com você da mesma dança. Quero cozinhar e comer a tua comida. Quero lavar e pendurar as tuas roupas. Quero escutar tuas palavras, ouvir o que você ouve, falar o que você fala. Quero ser filho do teu pai, ser filho da tua mãe. Quero sofrer o que você sofre. Quero sentir as dores dos teus partos. Quero acabar com esse negócio de você longe de mim.

Agora eu te agarro pela cintura e não te largo. A música desce pelo seu pescoço, passa pelos seus seios, atravessa a barriga, as virilhas e acaba em suas coxas que seguram as minhas e não largam nunca mais.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras