Bilhetes

Por: Marco Antonio Soares

Abro o livro em página incerta, procuro qualquer ensinamento que sirva de lenitivo às mágoas que trago em mim. Alguma coisa que suavize toda a aspereza de minha alma. Em texto curto, o poeta pede que eu tenha calma, aconselha-me, dizendo que “o joelho no chão tanto pode significar rogo como movimento primeiro pra ficar de pé.” Após leitura rápida, fecho o livro, absorvo o conhecimento que me veio em bilhete singelo. Reflito por alguns minutos, chego a acreditar nas palavras do poeta.

Ele não considerou, porém, que a vida, às vezes, impõe-nos castigos mais longos e severos. Assim, muitas de nossas tentativas de nos pormos de pé fracassam, mediante o entorpecimento das pernas e o enrijecimento das articulações. E toda impossibilidade da ação é corrente forte que escraviza qualquer anseio de liberdade.

Do conselho do poeta me resta somente o rogo, mas a minha voz é de homem velho, rouca, não atinge a insensibilidade dos que são extremamente ocupados, dos que são extremamente apressados, dos que vivem eternamente exaustos.

Abro novamente o livro em página incerta, procuro agora qualquer coisa que suavize as mágoas que trago em minha alma, qualquer lenitivo que amenize a aspereza que trago em mim. Leio outro texto curto, o poeta aconse-
lha que eu tenha fé.

Fecho rapidamente o livro, falta-me paciência.

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