Recadinho mensageiro

Por: Mauro Ferreira

Há trinta anos, ocorreu em Franca um dos primeiros movimentos populares após a instituição do AI-5 e a ditadura militar escancarada: o movimento pela preservação do Hotel Francano, que teve até ato público e discursos entusiasmados. Infelizmente, deu em nada, o patrimônio histórico local foi ao chão, como muitos outros que viriam em seguida. Naquela mesma noite do ato público, realizado defronte o velho e abandonado hotel, lancei meu segundo livro, intitulado “A Noite dos Espantalhos e Parasitas”, que trazia num dos contos um retrato irônico e ácido da endinheirada burguesia da época.

De certo modo, acho que foi este livro que me ajudou a construir uma imagem de “enfant terrible” da literatura da Franca do Imperador, que pouco tem de real. Foi um sucesso estrondoso, bem antes de existir a revista “Caras” e do Cazuza cantar que “a burguesia fede”. No lançamento diante do Hotel, numa sexta-feira de noite enluarada de abril, foram vendidos alguns poucos livros. Como sempre fazia na época, deixei dez exemplares à venda na Livraria Martins, que ficava no calçadão da rua Marechal Deodoro. No dia seguinte, antes da 11 horas da manhã, o Ary Martins me ligou pedindo mais dez exemplares, pois os anteriores haviam sido vendidos logo cedo.

O livro transformou-se num êxito editorial sem precedentes na minha despretensiosa “carreira” literária e um divisor de águas. Na segunda-feira, nova ligação do Ary ao meu escritório de arquitetura: “traga mais cinqüenta livros, que tá vendendo igual pãozinho quente”. Dois meses depois, a extraordinária tiragem de quinhentos exemplares estava totalmente esgotada. Até hoje, tem quem me peça o livro, sempre recomendo procurar o exemplar da biblioteca municipal. Qual teria sido o motivo daquele sucesso? Nunca procurei saber, mas suponho que os leitores queriam apenas adivinhar quem era quem numa obra de ficção.

Numa cidade provinciana (que ainda é), então com pouco mais de 150 mil habitantes, as pessoas da mesma classe social se conheciam e freqüentavam os mesmos lugares. A expansão de um certo tipo de jornalismo marrom, baseado na exposição pessoal permanente, despudorada e avassaladora à mídia e na exaltação e bajulação sem limites, na proliferação de “prêmios” financiados pelos próprios homenageados, provocada exclusivamente pelo êxito empresarial e o dinheiro e poder dele decorrentes, de uma sociedade em transformação rumo ao individualismo exacerbado e ao hedonismo, fizeram o resto.

Pelo que leio na imprensa francana, muito brevemente terei que lançar uma versão revista e atualizada da “Noite dos Espantalhos e Parasitas”. Alguns personagens, tantos anos depois, permanecem hors-concours, mas certamente haverá espaço para gente nova. Tanta que um conto será pouco, talvez apenas uma novela seja suficiente para caber todo mundo, incluindo as categorias “roberts”, “imortais”, “doidivanas” e “picaretas” sem nada melhor ou útil para fazer na vida. Vou esperar a data certa para relançar. Talvez na véspera de algum outro bombástico lançamento editorial do gênero cor-de-rosa desta ma-ra-vi-lho-sa terra das três colinas.

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