Livros e filhos

Por: Ivan Alves Filho

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Ao publicar um livro, alguns escritores chegam a exclamar: ‘Lancei um filho!’. E eles estão etimologicamente corretos: a palavra latina editore, na origem, significa parir. Nada mais nada menos.

Um livro é mesmo um filho. Conheço certos autores que falam com mais carinho a respeito de uma obra literária do que do próprio filho. Garanto que essa atitude é menos incomum do que se imagina. Para esses escritores, só existe um meio de conciliar as coisas: escrevendo um livro sobre o próprio filho, unindo assim o útil ao agradável. E, até, quem sabe, limpando a barra da própria consciência. Não custa nada refletir sobre isso.

Na impossibilidade de escrever um livro sobre o próprio filho, alguns buscam mesmo assim estabelecer curiosas ligações entre literatura e progenitura. Ou entre a criação e a criança - termos que têm a mesma raiz. Sei de um caso interessantísismo de um professor amante das letras clássicas que colocou o nome de Prefácio em seu primeiro filho. O segundo seria registrado com aquele de Posfácio. E o terceiro chamar-se-ia Epílogo, pois a ideia era fechar a página por aí. Mas o livro põe e a vida dispõe: pelo visto, o professor carregou nas tintas e para sua surpresa um quarto filho - no caso, uma filha - despontou no horizonte ou no finalzinho da festa literária. Amante como era da literatura, o bravo professor não titubeou: a filha temporã recebeu o nome de Errata. Exatamente isso. Definitivamente, a literatura tem muitas curiosidades para contar.

De imediato, me saltou à memória a história de Cristóvão Colombo, o bravo decobridor das Américas. Colombo deixou filhos, escreveu relatos extraordinários sobre o Novo Mundo. Só não sei se plantou alguma árvore - medida talvez dispensável na exuberante ilha Hespaniola, no agitado mar das Caraíbas. De toda forma, um de seus filhos se transformaria no maior colecionador de livros de seu tempo. Fernando Colombo - este o seu nome - reuniu, em Sevilha, cerca de 20 mil livros. Este Fernando era filho de Cristóvão Colombo com Beatriz Henriques, uma moça de origem humilde que com ele tivera uma ligação extra-conjugal. Fernando reuniu todas essas obras em pleno século XVI, nunca é demais lembrar. Realmente extraodinário. Só que ocorreu um problema: Fernando Colombo não teve filhos e deixou um sobrinho seu encarregado de doar o importantíssismo acervo à Catedral de Sevilha. Resultado: ninguém tomou conta de nada e quase tudo se perdeu. No final da vida, Fernando se queixaria amargamente: ‘É mais difícil’, disse ele, ‘guardar livros do que guardar donzelas. Estas, recatadas e honestas, quando as levam, gritam; mas o livro, se o levam, não pode gritar’.

À sua maneira, o nosso bom Fernando Colombo talvez tenha cometido uma errata. Afinal, quem mandou não ter filhos?

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