O presente

Por: Cleria Bittar Pucci Bueno

De todos os presentes faltava você, faltava a sua marca, o seu toque, a sua risada. Em tantos lugares era sua ausência, a presença, o lugar do eterno retorno, um tipo de gênesis pessoal. Tantos presentes estiveram presentes nestes tempos, menos aquela que um dia, a distância levou. Vê-la sumindo aos poucos, tornando-se escassa, quase invisível, era desumano em sua biografia. Tanta coisa deixou de ser vivida, tantas marcas foram tatuadas n’alma, sua ausência ressignificava cada contexto, tornando-se às vezes uma inoportuna presença que se impunha à memória e ao coração ferido. E tantas vezes foi pedido que o céu se abrisse, se fizesse menos etéreo, se materializasse na promessa de novos encontros, transmutados em presença. Assim ia driblando o que o passado confinara em sua estante de memórias. E o abandono cedeu espaço para a saudade, aquele bichinho que corrói por dentro, feito lepra, enquanto por fora as máscaras por vezes não revelam o extremo da dor. Da saudade nasceu a nostalgia, que é a eternidade reconstruída diariamente das cinzas deste algo que um dia existiu. Mas um dia até a Saudade cansou de si mesma, e confabulou com o Destino. Chegado o momento articularam-se nos ares mil obreiros, preparando novos horizontes, novo futuro. O recomeço foi gestado como o feto no interior da mãe. Resgatou-se o momento anterior em que certas coisas não foram nunca feitas ou ditas, em que as palavras não haviam marcado com cinzel e martelo os ouvidos, tornando-os moucos, dolorosamente surdos.

A separação que existiu um dia criou asas para que elas voassem num céu lilás. E foi em pleno vôo que vislumbraram a possibilidade da superação, que consiste em crer no reencontro e no recomeço. Hoje elas têm um futuro, urdido no presente. E se há algo mais idôneo neste, é saber que nem mesmo o hiato imposto pelo longo silêncio de sua ausência foi capaz de modificar os doces sentimentos construídos no passado, entre brincadeiras, sonhos, devaneios, risadas, quintais, passeios e bonecas. Lugares que serviram de porto seguro protegendo a memória e fomentando o mais ardente desejo de um dia poder a eles voltar. Hoje o seu maior presente é este presente. Depois de tantos anos tê-la de volta em seu mundinho particular, arquitetando tantas tardes mornas e dolentes de conversas e olhares, confidências e projetos, foi o mais oportuno e generoso presente que ela recebeu. A presença amada da outra, por um tempo tornada invisível, voltara a brilhar com toda a força daqueles dias passados. O presente reconciliado com o passado alicerçou as bases para a edificação de um futuro, não incerto como pensam alguns, mas eterno como deve ser o tempo.

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