Pra onde vai o cavalo?

Por: Téo Lopes

A manhã apareceu desligando os grilos.

O sol veio só a trabalho nem dizendo bom dia.

A cidade era quase ninguém. Apenas algumas gargantas, uns poucos sapatos, um ou dois lenços. Cada construção recebendo uma demão extra de silêncio. E nas articulações das esquinas, misturada com a cor velha dos telhados, com o vôo das pombas velhas da praça, impregnada nos remendos do asfalto e também na escassez de crianças em volta do parque, estava a tristeza.

Um cavalo passou percorrendo a avenida principal, sozinho, deixando cair no chão diversas perguntas: quê, quando, quem, onde, qual, como...

Na frente da casa de seu Zeferino, um típico saco de lixo em dia de domingo, mais pra mosca do que pra plástico. O próprio seu Zeferino, ainda deitado no sofá com a barriga descoberta e o pé sem asseio, estava mais pra passado do que pra gente.

A velha dona Manuela dormia desde anteontem na caminha de cupins.

Sobre a mesa da cozinha, na casa deles, um pedaço de jornal era a fruteira e a casca podre de uma banana da última criança, era a fruta.

Uma toalha encardida que já nem formigas expunha, era a hospitalidade, e um pedaço de louça equilibrando-se no nada era o cafezinho da última visita.

O besouro que sentia cócegas no xale esquelético de dona Manuela e logo após dava cabeçada na sola do chinelo ainda no pé de seu Zeferino, era o diálogo.

O rastro que a velha deixava na poeira do assoalho, para ir, uma vez por semana, até o sofá, verificar se o velho ainda respirava, era o amor.

O cavalo voltou pelo mesmo caminho, ainda sozinho, pisando em cima dos quandos, dos quês, dos ondes, dos quais e dos comos.

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