“Moça com brinco de pérola”

Por: Lucia Helena Goulart Gilberto Pizzo

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Tracy Chevalier é uma apaixonada pela obra de Johannes Vermeer, considerado após Rembrandt o mais importante pintor da Holanda. Vermeer viveu entre os anos de 1623 e 1675, em Delft. Foi comerciante de arte, pintou vários quadros, dos quais se destaca Moça com brinco de pérola, considerado por muitos como a Mona Lisa holandesa. A escritora conheceu pessoalmente 28 dos 35 quadros de Vermeer, e devido a esta admiração escreveu o romance do título, onde história e ficção se mesclam.O entorno social e cultural do romance é marcado pelo ar da época e pelo amor platônico que pulsa no coração dos protagonistas. O livro foi transformado em filme em 2003 sob a direção de Peter Welber, sendo interpretado por Scarlett Johanson no papel de Griet e Colin Firth no de Vermeer. Recebeu três indicações ao Oscar. A fotografia e os figurinos são impecáveis. O filme é lindo, vale a pena assisti-lo.

Bem, voltando ao livro, fazemos uma viagem em retrospectiva ao século XVII, à Holanda (Delft) onde de forma cristalizada impera uma teia social de contrastes e confrontos. Vige uma diferença abissal entre pessoas ricas e pobres. Elas são separadas inclusive por áreas geográficas. Patrões/criados, católicos/protestantes, as vozes dos menos favorecidos eram praticamente fadadas ao mutismo. Neste cenário Griet, jovem de 16 anos, vai trabalhar como criada na casa ( e posteriormente no atelier) de Johannes Vermeer, célebre pintor. A moça o faz por necessidade, para ajudar o pai, também artista, pintor de azulejos, que havia ficado cego. Defronta-se então com nova realidade, rumo ao inusitado que mudaria seu destino para sempre. Passa a conviver com a família de Vermeer: a esposa Catarina; a mãe desta, Maria Thins, que exerce um papel autoritário, fálico, primordial na trama; os cinco filhos do casal; alguns criados.

O ambiente tão diverso daquele onde até então havia vivido, traz a Griet medo, curiosidade, e também curiosidade. Ela não é recebida de forma amistosa na casa, pois além de jovem e bela é apenas uma criada. Mas é também inteligente, perspicaz, com sensibilidade singular para as cores, as tintas, e tudo de modo natural. Desde que a vê lidar com vegetais separando-os por grupo de cores, ton-sur-ton, Vermeer a enxerga. Assim vai surgindo no ar algo latente entre eles, e ela vai se tornando presença constante em seu atelier. Destaca-se por limpar o espaço com tal esmero que quase o transforma em santuário. Em seguida aprende a lidar com as tintas. Seu mundo anterior esfumaça-se, seu mundo novo se colore em nível interno.

Maria Thins percebe que seu genro passa a ficar maior tempo no atelier, pintando. Há ciúme, inveja por parte de Catarina. Vermeer, de forma sedutora mas contida, instala-se no coração de Griet, o platônico ali faz morada, a contenção verbal e sexual parece prestes a se romper em Griet. Ela se torna seu modelo para o quadro Moça com brinco de pérola. Para posar para o pintor, a pedido deste ela usa secretamente os brincos de Catarina.

Cortejada por alguns homens, como o filho do açougueiro da família Vermeer, Pieter, não se deixa envolver, pois deseja Johannes. Lúcida, contudo, percebe que vive uma paixão impossível dadas as normas sociais e morais imperativas. Este triângulo Johannes/ Griet/ Pieter enseja um dos momentos mais metafóricos do filme. Ao deixar que suas orelhas sejam perfuradas para usar o brinco de pérola, sob instrução de Vermeer, é como se deixasse que ele a desvirginasse. Fisicamente é Pieter quem o faz, mas o desejo de Griet está voltado o tempo todo para Vermeer. O uso deste brinco e tudo o mais que dele decorre causarão muita dor.

O narrador da história dá um salto no tempo para mostrar, anos depois, Griet casada com Pieter, trabalhando no mercado de carnes. Ela formou uma família, mas não é feliz. Quando Vermeer morre, dez anos depois, Catarina, embora a contragosto, cumpre desejo expresso pelo marido e entrega a Griet o par de brincos que tanta dor causara. O que Griet faz com a joia lhe confere uma liberdade a ser entendida por quem chega às páginas finais deste romance de beleza ímpar.

PLASTICIDADE

Tracy Chevalier

Tendo em vista a criatividade e o domínio da linguagem e das estruturas narrativas, é de se crer que ainda vamos ler muitos romances bons de Tracy Chevalier, a jovem autora de Moça com brinco de pérola, que Lúcia Helena Goulart Gilberto Pizzo resenha ao lado.

Tracy nasceu na capital dos Estados Unidos, numa família habituada a reconhecer e cultuar manifestações de arte. Seu pai foi um fotógrafo conhecido do público norte-americano, tendo trabalhado muito tempo no Washington Post. Caçula de três irmãos, ela resolveu mudar-se para Londres em 1984. Tinha 22 anos e o desejo de fazer mestrado em Escrita Criativa, o que acabou acontecendo. Depois foi trabalhar numa editora, em Norwich, onde entrou em contato com jovens escritores que a influenciaram, imprimiram e incentivaram. Data desta época o início do primeiro romance, The virgin blue, ainda não traduzido para o português, e em cuja escrita se demorou poucos meses. Depois viriam Moça com brinco de pérola, A dama e o unicórnio, Quando os anjos caem e Criaturas notáveis.

Leitora de Laura Wilder, Madeleine L’ Engle, Susan Cooper e Lhoyd Alexander, revela como estes precisão e clareza de estilo, o que não significa que enxugue o texto sem permitir ao leitor ter contato com o sensorial que é o seu forte. Muito plástico, o texto de Tracy atrai pela capacidade pictórica, exercitada de forma magistral no livro resenhado. Ao falar de pintores e de pintura, “a autora colore cada parágrafo com as tintas dos afetos”, registra um de seus críticos. (SM)


Serviço
Titulo: Moça com brinco de pérola
Autor: Tracy Chevalier
Editora: Bertrand Brasil
Páginas: 240
Preço: R$ 35
Onde comprar: submarino.com

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