Remédios e caminhos

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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O homem velho, sentado no banco da praça, próximo à Concha Acústica, está com as duas mãos apoiadas na bengala e os olhos fixos no trabalho dos funcionários da Prefeitura. Munidos de serras elétricas, eles transformam árvore caída em dezenas de pedaços que são arrastados, jogados em cima de caminhões que se vão abarrotados de galhos , de folhas, pedaços de troncos.

Daí a pouco, só restam folhas carpetando o chão da pequena praça dentro da Praça Nossa Senhora da Conceição. É quando uma voz puxa a atenção do velho para outro mundo.

— Bom dia, Sô Chico!

— Heinh? Ah... bom dia, jovem.

— Descansando um pouco?

— Não, não... desculpe, mas eu não estou reconhecendo o jovem.

— Sou o Zé Luiz, filho do José de Mattos. Meu pai gostava muito do senhor.

— Filho do José de Mattos? Nossa, como vai ele e a dona Luzia Lana?


— A minha mãe vai bem, mas o meu pai faleceu, faz tempo.

— Nossa, desculpe, eu não sabia. Que Deus o tenha. Que Deus o tenha.

O velho se descobre duas vezes, explica:

— Estava vendo os homens cortarem o flamboyant que a ventania derrubou... me deu um aperto no coração, quase chorei... Mas, me conta, você continua na farmácia do seu pai?

— Não, não. Eu abandonei o comércio, agora sou advogado.

— Mas você era farmacêutico também, igual ao seu pai, não era ?

— Era...quer dizer....

E o doutor José Luiz lembra ao velho que, não só aqui, mas, no país todo, naquela época, havia poucos farmacêuticos formados. Então, a pessoa estudava, freqüentava um curso técnico, virava Oficial de Farmácia. Com anos de prática, passava a ser Farmacêutico Provisionado.

Chico Franco especula, o advogado é gentil, cutuca lembranças, aviva um passado rico.

José de Mattos veio de Ituverava, chegou aqui em 1961, comprou do Senhor Negro Manuel Vieira de Andrade - a Farmácia Dom Bosco, então localizada no primeiro quarteirão da Rua Marechal Deodoro. No ano seguinte, fechou a Farmácia Dom Bosco e comprou do senhor Granduque José a farmácia Nossa Senhora das Graças, instalada no primeiro imóvel da Avenida Presidente Vargas. Cinco anos depois, tornou-se proprietário da famosa Farmácia Santana, na esquina das praças Barão e Nossa Senhora da Conceição, até então sob a orientação de Abílio Coutinho. Em 1969, comprou a Farmácia São Paulo, ao lado da Lâmina de Ouro, de propriedade de Arnaldo Faleiros, que permaneceu dono da Farmácia Normal.

— Meu pai voltou a Ituverava, onde operou por oito anos no mercado de grãos. Quando retornou a Franca, virou fazendeiro.

— Nossa, como o tempo passou depressa.

— Pois é, Sô Chico, a vida não para... e o mundo vai dando voltas. Quem diria que, depois de tantos anos mexendo com remédio, eu viraria advogado?

— É verdade, menino... É verdade...

Chico Franco se ergue.

— Agora o jovem me dá licença que preciso ir.

— Vai pra onde, Sô Chico?

— Vou lá pra Estação. Eu moro depois da linha do trem.

— Eu levo o senhor, meu carro está logo ali.

— Não, não, jovem. Eu agradeço, mas preciso andar. Eu sempre ando, preciso caminhar. Até mais ver.

— Então adeus, Sô Chico.

O velho caminha em direção à Rua General Teles, some em meio às pessoas que estão diante do Senhor Café, discutindo a tempestade da noite anterior.

José Luiz também se ergue, mas permanece longo tempo observando os passos incertos do velho, o som ritmado de sua bengala nas pedrinhas do calçamento.

Vê e escuta muito mais.

Diante de seus olhos passa novamente um mundo tranqüilo de que, ingenuamente, fez parte.

É um mundo pleno de música vozes de aprendizes e de farmacêuticos, de remédios e de clientes. Vozes amigas.

Ouve a música que vem de longe... Ouve o alarido de gente e de bichos, de passarinhos e de crianças...

Ouve, com nitidez, a voz paterna ensinando remédios, ensinando caminhos.

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