Sopro divino

Por: Chiachiri Filho

Do barro Ele fez o homem e, soprando em suas narinas, deu-lhe a vida. Porém, o barro não era de boa qualidade e o homem já nasceu defeituoso. Por conseguinte, Adão e Eva, desobedientes, comeram o fruto proibido. Caím, invejoso, matou Abel e daí para frente desenrolou-se a História da humanidade com algumas conquistas e muitas tragédias.

Ao longo dos tempos, as religiões procuram regenerar o barro defeituoso. Para tanto, recolhem dízimos, vendem indulgências, constróem templos, incutem no homem o sentimento de pecado e de culpa. O caminho para se chegar a Deus é áspero, tortuoso, complicado e até enganador. Não há como trilhá-lo sem a misericórdia e a graça divinas. No trajeto, há sempre um pastor que fala por Deus, interpreta os seus desígnios e nunca nos deixa esquecer de que somos fracos e pecadores.

Fracos e pecadores: esta é a sina dos homens. E os pecados são inúmeros e variados. Pode-se começar com a gula, passar pelo adultério e culminar com o assassinato. Basta um simples deslize para cairmos nas chamas eternas do Inferno.

Inconformado com as explicações religiosas sobre as origens e desenvolvimento da humanidade, procurei alguma luz nos textos científicos. Li sobre a lama primordial, sobre os anfíbios, os primatas, os hominídeos, sobre a evolução e a diferenciação das espécies. A conclusão foi lógica: o acaso fez que surgisse da lama primitiva uma espécie de ameba . Uma ameba, prezado leitor, uma simples ameba que nasceu, multiplicou-se e se transformou no decurso das eras nos seres que hoje habitam o nosso mundo. A ciência, com sua lógica implacável e fria, esclarece a evolução sem, contudo, apresentar a razão de ser do mundo e das coisas. Para ela somos simplesmente frutos de uma ameba perdida no Cosmo cujo destino é nascer, crescer, reproduzir-se e morrer.

De minha parte, prezado leitor, recuso-me a ser apenas uma ameba jogada no planeta azul. Prefiro muito mais ser um sopro divino , sopro que deu vida a um boneco de barro. Deu-lhe vida, razão, finalidade e ainda prometeu-lhe a eternidade de um Paraíso.

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