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Por: Caio Porfirio

Da ponta da calçada vi, lá do alto, na rua deserta, íngreme e suja, o vulto de costas, em pé, parado. Vontade de vê-lo de perto. Chamamento estranho. E lá fui, ruela acima, escorregando. Cheguei. Ao vê-lo de frente senti um toque de quem passava apressado.

—Falando sozinho?

Ali estava eu. Apenas eu, dirigindo-me a mim mesmo. Desalentado, voltei aos escorregões e cheguei estafado ao ponto de partida. Sentei-me no meio-fio, friccionei as pernas, e vi que outras pernas acomodavam-se ao lado. Sujas, sapatos cambaios. Não se manifestaram, Ali ficaram. Mais pernas juntaram-se a estas: gordas, magras, morenas etc.. Concentrei-me no meu silêncio, e as pernas vizinhas, talvez decepcionadas, foram saindo, as últimas as que primeiro chegaram, sapatos cambaios.

Vi então em frente o rosto feminino, olhando por trás do caixilho da janela. Levantei-me e ficamos nos fitando longamente. Veio a noite e o caixilho, no ruído seco, eclipsou-a.

Respingos de chuva. Abracei-me. Olhei em torno. Convenci-me de que nada me restara. O caixilho, em frente, no seu silêncio, dava-me consciência disto, apagando-me a figura doída que surgira e me ficara gravada no passado.

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