Passado

Por: Marco Antonio Soares

Mais uma sexta-feira da paixão se foi. Só não se foram as recordações deixadas por minha avó; que, neste dia, com a persuasão de suas histórias, arrancava todo o silêncio possível de minha alma crédula e pueril.

Sob o olhar vigilante de um crucifixo pregado à parede, a voz envelhecida caminhava vagarosamente sobre vírgulas. Atirava, de quando em quando, migalhas de suspense à minha ansiedade. Tecia minuciosamente a figura do belo moço que, à meia noite, descobria-se, mostrando os chifres demoníacos a todos, transformando-se em fumaça de enxofre em pleno baile.

Procurando desvencilhar-me do clima de medo e religiosidade impostos por minha avó, eu me sentava na calçada, vasculhando com os olhos alguma diversão, mas as ruas deixavam de ser pequenos campos de futebol para serem apenas ruas e os poucos carros, que existiam à época, raramente circulavam.

Hoje, o antigo crucifixo colado à parede parece reclamar minha atenção. Pareço ouvir a distância a voz enrouquecida de minha avó contando histórias de assombração, mas a credulidade antiga acostumou-se a questionar fatos, não crendo mais em histórias.

Agora, resta em mim a busca pelo silêncio, que foge a cada carro, que passa sua velocidade por mim.

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