O rei e eu

Por: Mauro Ferreira

Só acompanhei a carreira musical de Roberto Carlos durante a fase da Jovem Guarda, nos anos sessenta. Roqueiro, preferia o Erasmo. Mas sim, eu ouvi Roberto, Martinha (o Queijinho de Minas), Wanderléa, Jerry Adriani, Wanderlei Cardoso, Os Vips, Silvinha, Eduardo Araújo (o Goiabão), Golden Boys e todas aquelas letras infames das versões de sucessos estrangeiros que o Carlos Imperial fazia.

Antes de aflorar o tropicalismo, nas ensolaradas tardes de domingo da rua Júlio Cardoso a gente passava entre o programa Jovem Guarda da TV Record na sala e o velho radinho a válvula do meu pai na copa, sintonizado no jogo da Veterana ou do São Paulo, na Rádio Bandeirantes, com a voz inconfundível do Fiori Gigliotti a narrar “abrem-se as cortinas e começa o espetáculo”. O barulho era grande e a disputa era qual dos dois ficava mais alto. Só quando saia o gol e a gritaria aumentava é que o programa do Roberto Carlos perdia. Assisti aos filmes que ele fez, freqüentei a fila do cine São Luiz para ver “Roberto Carlos a 300 km por Hora”.

O primeiro contato que eu tive com o Rei foi numa viagem que fizemos com meu pai a passeio pelo interior de São Paulo, ele tinha acabado de comprar um DKW Vemag e queria experimentá-lo. O ano era 1965, acho, e fomos parar em São José do Rio Preto, hospedados no hotel São Paulo, um bem antigo. Era um sábado à tarde e, perto do hotel, começou uma aglomeração enorme, uma gritaria sem tamanho que chamou nossa atenção. Parecia que ia haver um linchamento. Ou estavam matando um porco no centro da cidade.

Fomos ver o que era. O Rei ia se apresentar no auditório de uma emissora de rádio, mas a lotação era tamanha que havia gente de fora e pendurada nas sacadas do prédio, uma confusão total. Cancelaram a apresentação no auditório com medo de uma tragédia e transferiram para a praça. Assim, à noite, eu e meu irmão fomos ver o show do tal de Roberto Carlos, de quem eu nunca tinha ouvido falar antes. Grátis, em praça pública. Foi uma gritaria só das meninas, impossível ouvir qualquer coisa decente.

Quando explodiu a Tropicália, eu logo comprei o LP e ele passou a ser o número um no nosso toca-discos Garrard, junto com os discos do Gilberto Gil e do Caetano Veloso. Abandonei definitivamente Roberto. Não tomei conhecimento do seu processo de transformação em cantor romântico-brega, seus hits espirituais ou como animador de cruzeiros em navios. Nunca assisti um show daqueles de final de ano da Globo, ele sempre de branco.

Só atentei para os fatos quando começaram a falar dos setenta anos do Rei, para perceber o quanto de água passou debaixo da ponte desde que eu o vi pela primeira vez, naquela terra quente e suarenta chamada Rio Preto.

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