Dançando

Por: Maria Luiza Salomão

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A Vida é dança onde se aprende os voleios, desafiando a gravidade, seguindo uma coreografia e compondo outra, domando músculos, emoções, caindo e levantando, machucando e recuperando, às vezes emendando erros com acertos, em êxtase, em funda melancolia.

Dos ensaios interiores vamos ao palco, com sorrisos e mesuras, disfarçando as dores, arredondando os gestos, criando graças, esperando aplausos. Se não surge o aplauso, urge sair de cena com dignidade e chorar na coxia. E voltar aos ensaios, domar as emoções, fortalecer os músculos, cair e levantar de novo, machucar e se recuperar para a próxima.

Não é que “o show não pode parar”. O show não para! Dançamos, conscientes ou inconscientes do ritmo da música, da pausa, do parceiro, do salto ao abismo, da volta e meia, meia volta ao mesmo lugar.

No espaço e tempo da alma, pode ser que a gente ouça a vaia implacável de nós mesmos, poucos aplausos quando caímos e levantamos, quando choramos e continuamos, apesar da Dor, Competição, Ciúme, Inveja, Desespero, Descrença em nós mesmos. Ai se não houver compaixão pelos erros e atenção aos acertos. No palco, no calor da dança, o cordão do puxa-empurra é maior, e estica e rebate feito chicote em escravo no cativeiro.

Nem sempre conseguimos dançar em grupo, nem sempre conseguimos continuar, sozinhos.

Dançamos. Harmoniosamente ou segundo o comentário irônico de quem nos assiste: ele dançou. Ao ouvir “ele dançou”, em certo tom de voz, e um ricto de boca, sabemos da Queda, do balão de alma murcho, dos tendões dos sonhos feridos, rompidos, dilacerados.

“Ele dançou” e ponto. Deus! Não tem jeito de passar a limpo, nem direito a uma outra tentativa. O momento se foi na dança de um instante. A fila anda. É preciso dançar, em qualquer sentido.

- Aprende-se a dançar melhor depois. Quando há depois.

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