Maturidade

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

“Ninguém gosta de ser contrariado. Patrícia em especial. Mauro diz que quando ela se zanga, reage; quando se aborrece, vira fera! E ai de quem tentar consolar, abrandar a ofensa ou explicar que a reação está além da gravidade. Aí ela se enfurece, mesmo!

O ginásio do Clube dos Bagres, na década de 70, até que o moderno Poliesportivo fosse construído e mais tarde recebesse o nome de Pedro Morila Fuentes, foi palco durante anos das mais importantes partidas e campeonatos de basquete, que acabariam por tornar Franca cidade conhecida não apenas como centro produtor de calçados masculinos, mas também como a capital do Basquete Masculino do Brasil. Na cidade, um trio de jovens esportistas - Hélio Rubens, Totô e Fransérgio, irmãos por nascimento - polarizavam as atenções do público ligado em esportes. Frequentemente os “Irmãos Garcia” eram chamados para receber faixas, troféus, placas, solidificando a admiração dos torcedores. Essas homenagens aconteciam antes do início das memoráveis partidas. Dado o clima tenso, protocolar e solene, o simples gesto de entregar o prêmio aos campeões do basquete tornava-se extremamente honroso para ambas as partes. Uma ocasião, Patrícia foi convidada para entregar um desses prêmios. Postada na quadra, ao lado de figurões da cidade,
lá estava ela segurando um dos três troféus. Hino Nacional executado, murmúrio da multidão, o cerimonialista chamou a primeira pessoa que entregaria o prêmio e o primeiro irmão, a recebê-la. Palmas, assobios, barulho de festa, aclamação. Novamente outra personalidade, outro irmão, novas manifestações. Porém quando uma voz anunciou Patrícia para entregar o terceiro troféu ... o clube veio abaixo. Uma ensurdecedora vaia abafou qualquer som de aprovação. Pois ela foi até o centro da quadra como se estivesse ouvindo um coro de anjos. Sorrindo, entregou a láurea. Voltou, sentou-se e assistiu ao jogo inteiro, ao lado da família.

De volta para casa, no carro, Mauro conta que pareciam estátuas, ninguém se mexia e era absoluto o silêncio dos quatro-dois filhos, ela e Américo, o pai. Estavam com medo da explosão que se seguiria à menor chispa disparada. A surpresa os pegou quando a pergunta pingou entre eles, quebrando o gelo: “Gente! Vocês ouviram a vaia?”, como se eles pudessem não ter ouvido. Explodiram na gargalhada.

Ao contar esse episódio, Mauro o fez para provar que ela reage de forma absolutamente inesperada às mais diversas situações. Ele nunca sabe se ela vai espernear ou ignorar a atitude alheia, diante do mesmo estímulo. Por coincidência, ela usou essa mesma história, quando perguntada sobre sua decepção com alguma reação negativa que tivesse recebido. Também rindo.

Pelo jeito, ela sempre soube diferenciar atitudes infantis, deselegantes, mesquinhas, indecorosas e invejosas daquilo que realmente é ofensa, ultraje, afronta ou injúria. Com o tempo aprendeu a identificar a qualidade das pedras que lhe são atiradas e a superar a dor que as pedradas possam lhe causar. Se conseguirem, é claro, alcançá-la.”


****************


(Antecipo um dos trechos do livro que conta a história digna e interessante de uma das mulheres mais polêmicas que Franca já teve. O livro não será um êxito editorial fora de série, não vai atrair leitores por seu cheiro de sangue ou enxofre; não vai vender feito pipoca pois não tem tom agressivo e destruidor como o usado para atrair um tipo de gente que forma a multidão que se junta em torno de acidentes e acidentados; não machuca ninguém; não fere a integridade de quem quer que seja; não ofende. Vai ser lido por pessoas bem resolvidas, que acham graça no sucesso alheio. Não é propriamente um pompom cor-de-rosa, porque conta dores, lutas, superações de uma mulher corajosa e forte. Tenho me empenhado para que seja um livro elegante, para pessoas esclarecidas que se sentem bem com a alegria e felicidades alheias e que queiram aprender mais alguma coisa com um ser humano que, aos oitenta anos, ainda dá exemplo cotidiano de força, trabalho e tenacidade.)

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras