Procissão

Por: José Borges da Silva

A alvorada começava a se delinear por detrás das serras quando mãe e filhos iniciaram a caminhada pela estrada que liga a periferia da pequena cidade às fazendas das vizinhanças. As crianças tiritavam de frio. Abril, embora outono, apresentava cara de inverno. Caminhavam com cuidado para não tropeçarem nas pedras e tocos espalhados pelo caminho.

- Anda logo, Paulinho. Pra chegar atrasados nem adianta ir a gente ir. Não vai sobrar nadaà Ralhou a mãe, com alguma complacência na voz.

O caçula que mal completara cinco anos seguia atrás do grupo com passos miúdos, choramingando baixinho.

- Mãe, to com frioà Eu não quero leite mais nãoà

A mãe voltou-se para a franzina criatura, que aparentava ser menor ainda encolhida, o rostinho vermelho pelo açoite do vento gelado da madrugada. E passou o caldeirão vazio que levava à mão para o filho mais velho e escanchou o pequeno às cadeiras e prosseguiu cambaleando, cravando fundo os pés descalços na areia fria, ainda úmida de orvalho.

Quando o Sol aprumou-se o suficiente para que as sombras perdessem as dimensões de gigante, o pequeno grupo se aproximou da Fazenda. Uma verdadeira procissão de caminhantes vinha vindo em sentido contrário, rostos felizes, baldes, caldeirões e potes repletos de leite espumante, recém colhido.

- Eu não falei? Não adianta nem acabar de chegarà Desabafou a mulher.

A despeito das conclusões pessimistas, chegaram. Um homem que os vira de longe desde o barracão de ordenha se aproximou, trazendo no rosto o cansaço do trabalho iniciado antes das três da manhã. E, meio sem jeito, confirmou as profecias da mulher:

- É uma pena... Vocês chegaram muito tardeà

A mulher engoliu em seco. Esboçou argumentar alguma coisa, mas calou-se. Com os olhos postos no chão deu meia volta e foi se retirando devagar, puxando o caçula pela mão num gesto de irritação. Mas o pequeno se manifestou de modo veemente:

- Mãe, mas eu queria leite... Nós não viemos buscar leite?

O homem, que a tudo ouvira, ficou em silêncio, observando o pequeno grupo seguir vagarosamente até desaparecer numa curva da estrada.

Quando o Sol já estava a pino, fazendo desaparecer as sombras sob os pés dos caminhantes, mãe e filhos ouviram um tropel vindo pela retaguarda. A mulher arredou logo as crianças para dar passagem, mas o cavaleiro não passou. E o retireiro da Fazenda se justificou com um meio sorriso, descendo da montaria:

- Tinha reservado pra fazer doce... Mas acho que é meio muito e... E foi destampando o recipiente de latão amarelado que trazia dependurado aos arreios e encheu as vasilhas de cada um até às tampas.

- A senhora sabe que hoje não pode beber, não sabe? Amanhã, sábado de aleluia, pode. Mas hoje, não. Nem patrão não pode vender... O pessoal pega pra fazer doce... Se beber, dizem que vira sangue.

O caçula olhou-o com os olhos baços, de cansaço e choro prolongado. No rosto um certo ar de tristeza. Mas o homem completou: Bom, acho que pros inocentes não tem problema não... Mas pros outros a senhora sabe: ferve e guarda. Deixa para dar amanhã.

E partiu de volta à fazenda em trote leve, rédeas soltas, deixando o ritmo da marcha a critério da montaria.

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