James Bond e a alma masculina

Por: Ulisses Pinheiro Lampazzi

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Bond... James Bond. Muitos anos se passaram desde a primeira vez que esta frase foi pronunciada no cinema. Livros foram escritos, milhões de dólares investidos, atores se revezaram no papel principal do agente secreto 007, mas algo continua a atrair multidões em uma fórmula que pouco se adaptou com o tempo: ação, elegância, charme, tecnologia e... belas mulheres. James Bond não teme a morte, sempre com a roupa, o cabelo e a tirada perfeita, pulando de para-quedas, fugindo de ski, dirigindo os carros esportivos mais cobiçados ou simplesmente pedindo “ um Martini de vodca, batido, não mexido”. As mulheres sempre se deixam levar, os tiros nunca o acertam, suas piadas sempre dão certo. Eis um pequeno resumo sobre a série de filmes mais bem sucedida da história do cinema. Um homem perfeito, que sabe equilibrar virilidade e bom gosto, violência e autocontrole, inteligência e espírito de ação.

Exemplo disso é o início do terceiro filme da série, estrelado por Sean Connery e intitulado Goldfinger. Após armar uma bomba, o herói troca suas roupas de mergulho por um terno branco, gravata borboleta e um belo cravo na lapela, para entrar tranquilamente em uma casa noturna próxima à área em que estava. Ali uma bela dançarina se apresenta, acende um cigarro, olha para o relógio. A bomba explode. Enquanto todos correm, ele troca algumas palavras com outro agente presente no local e... naturalmente, leva a dançarina para seu quarto. Lá, ao ser questionado por sempre andar armado, destila o bom humor de sempre: Eu tenho um ligeiro complexo de inferioridade. Talvez não sirva para que você se console, mas sim! Eu também me perguntei algumas vezes porque não era exatamente igual a este homem.

A resposta é mais simples do que podemos pensar: não somos iguais ao James Bond, pois isto é confortavelmente impossível. E segundo uma singela teoria que desenvolvi, é exatamente esta impossibilidade que permite que tenhamos capacidade de assistir ao filme sem que nos deprimamos. Homens, imaginem só se esse homem fosse possível, se andasse por aí, nos amedrontando com seus olhos fixos em nossas mulheres! A comparação seria tão desleal que teríamos vergonha de ver suas façanhas também no cinema! Qual de nós nunca comeu peixe com um vinho tinto barato? Quem não deixou a unha crescer, mostrou os dentes sujos sem saber, levou um fora arrasador, disse uma frase sem sentido algum, confundiu a capital da Noruega com a da Finlândia (qual é a capital da Noruega mesmo?). Onde quero chegar com tudo isso? Talvez em lugar algum. Quero apenas assistir a série de James Bond com a consciência limpa. E esquecer que nem sempre fui um gentleman após beber a mesma quantidade de Martinis de vodca. Leitor, você já teve chulé? Esqueça... Talvez o serviço secreto britânico não o aceite por conta disso.

Superado o fato de que este homem não existe, podemos, no entanto, além de nos divertir repetindo suas falas, evoluirmos ligeiramente em algumas questões. Andar corretamente, com a cabeça erguida, sem afetação, já é um começo. Sermos educados, bom dia, boa tarde, boa noite, já é um passo adiante. Talvez andar bem vestido esteja muitos passos além, mas não seria ruim de forma alguma. Se os homens passassem a cortar as unhas com frequência, toda a série, iniciada em 1962, já teria valido à pena. Não para brincarmos de espião, mas para sermos homens mais agradáveis. Na busca constante pelo inatingível, talvez melhoremos a nós mesmos em algum momento.

Não serve a arte para isso? Contribuir para a vida, colorir a realidade, confortar, semear?

Claro que tudo isso tem o tom de uma brincadeira. James Bond talvez não saiba o que é amor, filhos, paz, e provavelmente felicidade, aquela profunda e sábia felicidade que só as pessoas tranquilas conseguem ter. O filme também não trata desse assunto. É ficção, diversão, sugestões para posteriores brincadeiras. Mesmo que assistam, nossas mulheres continuarão nos amando, mais que uma Bond girl, mesmo que fiquemos carecas, mesmo que nosso charme muitas vezes seja apenas um jeito tímido de errar na vida.

Homens... assistam aos filmes! Não se trata de armas, nem de carros, nem mulheres, e sim de uma análise divertida sobre até que ponto estamos satisfeitos com nossa própria essência. E, claro... são ótimos filmes de ação.


OBRA VASTA

Guy Hamilton

O nome de Guy Hamilton está associado especialmente a quatro filmes onde o herói é James Bond, o agente 007, personagem criado pelo novelista Ian Fleming para protagonizar alguns de seus romances . Os filmes são: Goldfinger, Os diamantes são eternos, Viva e deixe morrer, O homem da pistola de ouro. Goldfinger, sem dúvida, foi o que mais atenção chamou, conquistando elogios entusiasmados da crítica e levando milhões de pessoas ao cinema em todo mundo.

Nascido em Paris em 1922, ,de pais britânicos, este notável cineasta deixará um legado importante no mundo da cinematografia. Fez 22 filmes entre as décadas de 1950 e 1980. Estreou como assistente de Carol Reed, em The fallen idol, 1948, que não chegou ao Brasil. Seguiu com The third man, no ano seguinte, sob direção do mesmo Reed. Mas em 1952 fez o seu primeiro autoral, The Ringer.

No Brasil tornaram-se conhecidos, além dos quatro citados no primeiro parágrafo, A batalha britânica, Funeral em Berlim, Assassinato em dia de sol, O discípulo do diabo, Quase um criminoso, O melhor dos inimigos, As duas faces da lei, A maldição do espelho, Remo - desarmado e perigoso.

Dadas suas qualidades de diretor especializado em cenas de impacto, até hoje referidas como de excelência nos filmes de James Bond, foi escolhido para dirigir Superman, em 1978, e Batman, em 1980. Mas a sua condição de cidadão francês vivendo em país estrangeiro inviabilizou a contratação.

Goldfinger, para quem não sabe, é o nome do pior dos inimigos de Bond. (SM)


Serviço
Titulo: Goldfinger
Autor: Guy Hamilton
Gênero: Ação
Ano: 1964
Onde alugar: nas locadoras da cidade

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