Sinistro

Por: Everton de Paula

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Estava em casa, posto em sossego; as crianças com a avó materna, em Belo Horizonte, descansando da escola; a esposinha no cabeleireiro. Nenhum ruído; apenas o bem-te-vi tentando furar a casca de uma romã no quintal do vizinho. Era, na verdade, a minha segunda semana de férias e até aquele momento tudo corria manso. Tentava meditar; aliás, eu havia aprendido há pouco que meditar era não pensar. Ô coisa impossível! Deitava no sofá e buscava não pensar em nada. Até que no começo nascia uma espécie de nada na mente; depois constatava que não havia nada mais tagarela que a própria mente: imagens, desejos, sonhos, sentimentos, sugestões, perigo, desperigo... A segunda lição já era um pouquinho mais elucidativa: para ensaiar os primeiros passos da meditação, bastava apenas prestar atenção na própria respiração. Só isso. Assim é que eu estava em casa, posto em sossego, prestando uma atenção danada no ar que enchia meus pulmões para depois sair espremido pela boca, num vai-e-vem que me lembrava o mecanismo de impulsão das rodas dianteiras de uma locomotiva. Saudade de Minas, estação de Cipó, primeira parada para Sacramento: a charrete nos esperando, o cheiro de raiz umedecida; paradinha na estrada pra colher goiabas maduras no pé... Pronto, a mente tagarelando de novo!

Súbito (essa palavrinha já perdeu todo o impacto que trazia aos leitores de antanho... “Súbito” e “antanho” em duas linhas, então, nem se fala!) toca o telefone. Deixo a meditação suspensa e, atravessando o calor da sala, compactado pela alta umidade relativa de janeiro, chego ao aparelho. Antes mesmo de eu dizer alô, uma voz grave, masculina, áspera, avisa do outro lado:

- Você é o próximo da lista...

E “tum”, desligou o telefone. Com a mesma velocidade e convicção com que um gago diz “Itaquequecetuba”, retornei ao sofá, tonto como quem fica ouvindo o Luiz Cruz interpretando os contos de Sagarana. Que fluência, rapaz, que didática, que riqueza de detalhes! Do Cruz, é claro, porque nada mais direto, influente e intrigante que um “Você é o próximo da lista...”

Por que eu?

Se serei o próximo, já houve outros antes de mim?

Que lista?

Ah, é trote, na certa! De trote em trote, vivem querendo me vender carneiras no cemitério, relíquias do padre Pio, cestas de Natal Amaral, estampas sagradas... No último, haviam raptado minha filha e queriam porque queriam dez mil reais de resgate. Não pude atender o desejo do seqüestrador, uma vez que a filha seqüestrada estava ali, diante dos meus olhos, tentando fazer a Barbie aceitar o Bob como namorado.

A bina, meu Deus, lógico! Corri ao telefone: nada! Haviam ligado de algum aparelho previamente arranjado de forma a não deixar pistas quanto ao número.

Bem, aí eu me preocupei, mas só um pouquinho. Devia ser um trote bem bolado. Calcei os chinelos e fui tratar dos passarinhos. Um canarinho africano, chamam-no de “bigodinho”, cantador dos bons; outro, canarinho do reino e uma calopsita, que teimam em chamar de periquito. Água fresca, alpiste, jiló partido e toca o telefone.

Busquei minimizar a tensão. Agora deu tempo de eu dizer “alô”. Do outro lado veio o segundo aviso:

- Nós já lhe demos o recado. Você é o próximo. Amanhã, mesma hora, mesmo lugar. Nem pense em faltar; você já sabe as conseqüências; não queremos que ninguém saia ferido. Trato é trato...

- Que cara de assustado é essa?

Agora era a esposinha que acabava de chegar, me encarando meio espantada. Toda penteada, perfumada, piteuzinho. Às vezes me vinha à cabeça se eu merecia tanto.

- Quem era no telefone? Vamos, responda rápido!

Rápido? Santo Papa, eu mal podia entender o que estava se sucedendo. Alguém dissera “nós” no telefone. Então era um grupo, um bando, uma seita, coisa assim de sacrifício num altar ou de reunião secreta, no meio da noite, no porão ou numa masmorra. Eta mente tagarela e imaginosa!

Acho que respondi qualquer coisa parecida a “blausdeberrihumm... achque...sei” E lá estava a esposinha feito um pote de açúcar de duas asas: as mãos cerradas, na cintura, e o pezinho batendo nervoso no assoalho.

Mais calmo, expliquei-lhe o sucedido, ao que ela me respondeu com um “Sei!” entre os dentes.

Resolvi ficar ao lado do telefone com um gravador, pronto a ser acionado. Não deu outra. No primeiro tilintar, já fui tirando o fone do gancho e dizendo:

- Não vou à reunião p... nenhuma. Não quero ser o próximo de coisa alguma. Tô nem aí com conseqüências. Não fiz trato algum com ninguém... Se virem!

Desliguei em seguida, satisfeito comigo mesmo. No mínimo, era como se eu tivesse quebrado a cara de alguém. Na verdade, tinha era mesmo atrapalhado a reunião do grupo misterioso e esculachado com o ritual de algum grupo.

Cara, nem um minuto se passou e o telefone tocou de novo. Não dei chance, já fui falando:

- E tem mais: quero que vocês se explodam!

Do outro lado, uma vozinha infantil me responde:

- Paizinho, é sua filhinha, aqui de Belo Horizonte...

Um estalo e tive de perguntar:

- Minha filha, você havia me ligado antes?

- Não, papai, a vovó é que ligou pra mim, mas uma vez só. Cadê a mamãe?

- Nega, é pra você! A Marcinha!

Agora é esperar as tais conseqüências!

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