Entrega em domícilio

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Durante quase duas décadas, moramos nas proximidades da padaria Pão Nosso. Ambos éramos madrugadores, então era comum nos encontrarmos no interior ou perto da padaria. Nessas ocasiões, trocávamos cumprimentos e palavras de cortesia.

O médico, sóbrio nos gestos e nas palavras, tratava-me com máxima educação.

Embora corpulento e uns vinte anos mais velho que eu, era ágil, caminhava depressa, descia a rua padre Anchieta, com passos firmes, desaparecia no interior de sua residência de aparência simples.

Mudei de casa, fui morar em bairro afastado. Mantive-me, porém, fiel aos amigos e, portanto, freqüentando os mesmos lugares: barbeiro, fotógrafo, Gráfica, editor, cafés, armazém padaria. Mudaram foram meus horários. Os encontros com o médico, na rua e no estabelecimento comercial, passaram a ocorrer fortuitamente. Às vezes, nem nos cumprimentávamos. Eu apenas o via de longe, saindo da padaria, às vezes descendo a rua, às vezes entrando em casa.

O tempo se divertiu em asa de avião, e comecei a notar que o corpo do homem se fragilizava, que a travessia da rua ficava-lhe tarefa cada vez mais lenta e penosa.

Redobrei minha atenção e comecei a me preocupar. Seu corpo revelava dificuldade para descer, para subir o meio-fio.

Uma manhã, meu coração, aos pulos, quase saiu pela boca, impulsionado pelo fritar de pneus, pelo berro de buzinas. Olhos arregalados, vi o pedestre alcançar o outro lado da calçada. Abismado, tive certeza de que ele sequer tinha percebido o risco que correra.

Hoje, compromissos madrugaram comigo. Decidido a passar pela padaria, subia a Rua Padre Anchieta, quando uma cena me disse da efemeridade dos passos inexoráveis da vida: um funcionário da padaria Pão Nosso abriu o portão, entrou, tocou a campainha próxima à porta, esperou, entregou o pão na casa do doutor que ajudou tantos a alcançar o pão iluminado da vida. O Dr. Cirilo Barcellos.

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