Amor

Por: Maria Luiza Salomão

João Jardim fez aquele documentário maravilhoso “Janelas da alma”, com depoimentos de Saramago, Wim Wenders, Oliver Sacks, e outros, alguns anônimos, sobre o ato de ver (ou não ver), que pouco tem a ver com a visão sensorial, mas com o “olho da mente”, com a imaginação.

Com o título que é uma pergunta, Amor?, J.Jardim traz este novo documentário onde o tema são as relações amorosas (??), entre casais hetero ou homossexuais, na linha tênue, fronteira intangível, que separa dor, agressão, paixão desmedida, sado/masoquismo.

São 8 depoimentos, por hora e meia, de homens e mulheres (tendo um simples nome próprio a separar um depoimento do outro). Foram selecionados de 60 depoimentos reais (de pessoas de carne e osso), encenados por 9 atores em close-up na tela, o que dá uma intensidade e uma força que só vendo. São os excelentes Júlia Lemmertz, Ângelo Antonio, Eduardo Moscovis, Lília Cabral, Fabíula Nascimento, Silvia Lourenço, Letícia Colin, Mariana Lima. Duas atrizes representam o mesmo texto, o depoimento de uma mulher homossexual.

A mistura já foi experimentada no documentário Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, entre ficção e realidade. Diferentemente de Coutinho, João Jardim em Amor? mostra os atores, exclusivamente, encenando os textos, embora se saiba que estes são depoimentos de pessoas na vida real.

O documentário é uma pergunta. A narração de quem viveu a experiência não traz muitas respostas sobre o que levou cada um, ou cada uma, a experimentar o que experimentou. NO máximo, hipóteses. As marcas ficam patentes nos relatos encenados pelos atores, as cicatrizes, morais e traumáticas das vivências. Alguns depoimentos parecem apontar para elaborações psíquicas, em outros se vêem o sangue vivo pulsante, o ódio, a humilhação, a dor, o ressentimento, a tristeza, a melancolia. Através das excelentes interpretações dos atores, a experiência se materializa ali, em um canto da alma do narrador, pronta para voltar ao ataque, como leopardo, à menor lembrança. João Jardim manteve a verossimilhança, reunindo todos os atores em uma fazenda e preparando o ator, a atriz, cara a cara.

Mesmo que o leitor ou leitora não tenha passado por nada disso (vi gentes saindo do cinema), já deve ter visto um amigo, irmão, alguém familiar ou distante, contar experiência semelhante. Jogos fatais. O documentário permite que a gente acompanhe, via narração, como começam os terrores, feito um fio d´água que se engrossa em Rio São Francisco, e, no susto, há o estranhamento de ver o rio virando mar, a naufragar, em parte ou por inteiro a alma!

A pergunta é bem colocada. É Amor isso que acontece com homens e mulheres? Em meio a tanta Dor, sofrimento na carne e na alma, submissão e Ditadura torturante, a trilhar uma linha-limite entre sanidade e loucura?

Preciso ver mais vezes o documentário, mas tenho cá comigo que se não se cuida é possível cair em uma assim, prisão de máxima segurança (quero dizer, torturante, cruel, animal), em nome do Amor (!?!?).

Se não se cuida, se não se pensa, partimos para a ação. Se se age descuidado podemos conhecer a besta-fera que nos habita, e habita o Outro, mesmo que ela esteja acorrentada, como os Titãs mitológicos, no fundo do mar. É melhor não duvidar e muito menos desafiar os demônios. Eles coexistem, em cada ser, com os melhores anjos!

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