Nos trilhos do passado

Por: Hélio França

O chefe da estação trilava seu apito uma vez e o maquinista respondia com o da locomotiva. Alguns segundos após ouvia-se o segundo apito e novamente o do trem, para em seguida, com dois ou três indispensáveis solavancos, máquina e vagões unidos partiam vagarosamente rumo ao mesmo destino, a próxima cidade.

Quando garoto fiz algumas vezes o trecho Ribeirão Preto-Igaçaba pelo trem de ferro da saudosa Mogiana. Eram muitas horas de viagem e o comboio se compunha de locomotiva, vagão de lenha, um vagão de correspondências, e três de passageiros, sendo dois de primeira classe e outro de segunda . Se não me falha a memória, neste trajeto as paradas davam-se nas seguintes estações, saindo de Ribeirão : Jurucê, Brodósqui, Batatais, Boa Sorte, Franca, Miramontes, Cristais Paulista, Chave da Taquara, Pedregulho, Chapadão e finalmente Igaçaba. Depois o comboio prosseguia rumo a Rifaina, Conquista e Sacramento, estas duas já em solo mineiro.

A viagem em si já podia ser considerada impagável. Numa velocidade aproximada de 40 quilômetros por hora, era permitido aos olhares menos interessados perceber desde uma vaca pastando sofregamente a um cavaleiro trotando pelas campinas, o qual invariavelmente acenava com a mão à passagem do trem. As pontes sobre os rios Pardo e Sapucaí também eram motivos de curiosidade e beleza aos olhos. Sempre que se aproximava uma parada, vinha o chefe do trem ou fiscal, com andar meio que bamboleante face aos meneios dos vagões, anunciando alto o nome da cidade ou estação enquanto ia picotando os bilhetes ou passagens. Para aplacar fome e sede, um funcionário vendia, circulando vez por outra pelos corredores com uma grande cesta presa por uma correia ao pescoço, sanduíches de pão com mortadela, guaranás “frescos”, bolachas e balas.

Mas a chegada em Igaçaba era uma festa. O trem já vinha apitando e expelindo fumaça pela chaminé nas primeiras curvas no alto da serra de onde tínhamos uma visão deslumbrante das furnas do Bom Jesus e o vale do Rio Grande com suas montanhas azuis. E quando fazia a última curva à esquerda podia-se ver, lá embaixo, encravada na encosta do morro, a singela Igaçaba, com suas casinhas brancas e as pessoas descendo a pé e a cavalo nas ruas empoeiradas rumo à estação. Uns iam esperar amigos e parentes, outros receber ou despachar encomendas e havia até aqueles que se atreviam a ver o trem chegar apenas para um possível e eventual flerte !

De férias escolares, descia com meus pais nesta estação onde um carroção de transportar café, e puxado por seis burros, nos transportava com as malas até a Fazenda Recreio, do Vô João Pedro. Daí para frente, era beber leite no curral, andar a cavalo, dar milho às galinhas, armar arapucas e outras alegrias próprias de um garoto de seis anos cuja preocupação maior constituía-se de brincadeiras e fantasias próprias da infância ...

*Histórias à parte, reza a história, que lá em Igaçaba um menino de cerca de oito anos e pés descalços ia todos os dias ver a Mogiana ( como era chamado o trem ) chegar e sair da estação. Ficava olhando-o até sumir na última curva , e seu sonho era tornar-se maquinista e comandar aquela máquina que soltava fumaça pelas ventas. Dizem também que o sonho de ser maquinista ele nunca realizou. Sabe-se, no entanto, que passados muitos anos veio a dirigir uma outra locomotiva, o Estado de São Paulo.

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