A história de um alpinista social

Por: Sônia Machiavelli

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Presidiária condenada injustamente por roubo, a personagem Norma, vivida por Glória Pires na novela Insensato coração, conversa com a colega de cela e diz que aprendeu muito durante o tempo de cadeia porque descobriu os livros. Ao contrário da amiga, viciada em revistas de celebridades, Norma lê, entre outros, Dostoievski e Stendhal, que parecem ensiná-la, segundo suas próprias palavras, a viver de um jeito menos ingênuo, mais realista. Às vésperas de ganhar liberdade provisória, cita e mostra O vermelho e o negro, de Stendhal, o romance onde Julien Sorel é um arrivista. E explica o que significa a palavra, lembrando a expressão contemporânea, “alpinista social.”

É um momento interessante da novela de Gilberto Braga, embora poucos devam ter atentado para a sutileza de inserir em pequeno diálogo um dos maiores protagonistas de ficção de todos os tempos. Ajuda a compor o retrato de Leonardo Brandão, o arrivista da novela, vilão-mor, verdadeiro culpado pelo crime atribuído a Norma. Esta afirma que a leitura dos ficcionistas a levou “a entender essas pessoas que pretendem conquistar um lugar de destaque no mundo a qualquer preço, a qualquer custo, agindo de forma imoral e tripudiando sobre os sentimentos dos que encontram em seu caminho”. Segundo Norma, “elas possuem uma mente diferente da maioria e não têm afetos.”

Mas há um nome ainda melhor que o de Julien Sorel para referenciar o Leo da novela. Talvez tenha passado despercebido ao autor, mas Georges Duroy perfila com mais exatidão o sujeito que vende a alma ao diabo para subir na vida. Refiro-me ao personagem do romance Bel-Ami, escrito pelo também francês Guy de Maupassant.

A história de Bel-Ami começa a ser narrada quando George Duroy, jovem suboficial de volta à vida civil, vagueia pelos bulevares parisienses com apenas uma moeda no bolso, o que o obriga a única refeição ao dia. Para enganar a fome, caminha e arquiteta planos. Primeiro para não voltar à província, onde estão seus pobres e ignorantes pais; segundo, para obter fortuna e status social. O ano é 1880; o mês, junho; a cidade, a Paris de fin-de-siècle. Graças a um antigo colega que encontra casualmente, numa noite onde perambula tentando tapear o estômago vazio, Duroy descobre a redação de um influente jornal francês e o fascínio que sua pessoa de beleza estonteante desperta nas mulheres. Serão essas, as mulheres ricas e influentes, que ele usará para ascender na vida profissional e social. Como degraus, cada uma servirá aos seus propósitos, numa escalada degradante e vil, onde ele acaba alcançando todos os seus objetivos.

O enredo do romance é do tipo que fisga o leitor desde o primeiro parágrafo, mantendo-o ligado nos lances que crescem em ritmo nervoso. Há uma ação que traz suspense, descrições plásticas de cenários, composição de personagens densos, retratos da Paris feérica deste período histórico singular. Mas principalmente excelentes diálogos e considerações do narrador onisciente que perfila o caráter do protagonista mergulhando por instantes em sua insensibilidade. Diante do cadáver do amigo que o salvara da desgraça, e frente à possibilidade iminente de se casar com a viúva, Duroy pensa “nas moscas que vivem algumas horas, nos animais que vivem alguns dias, nos homens que vivem alguns anos, nas terras que vivem alguns séculos. Qual a diferença entre uns e outros? Algumas auroras a mais, é tudo.”

O cinismo perturbador de Bel-Ami, encarnação plena do erotismo, é um dos índices do pessimismo do autor em relação à natureza humana, tendência da literatura do período e da escola que ele abraçou, o naturalismo, que não abria janelas à redenção dos anti-heróis que escolhia retratar. Corrente que não durou, pois seria logo superada pelo realismo, deixou entretanto algumas obras maiúsculas como este Bel-Ami, tão atual ainda hoje. Lê-lo é trazer à tona de nosso cotidiano muitos outros seres semelhantes, figuras humanas que independem de tempo ou lugar para o exercício de seu narcisismo doentio. É este insight e esta sabedoria na composição de um perso-nagem que definem um escritor como clássico.

Em tempo: Robert Pattinson, que fez vampiros nos filmes da série homônima e tem papel de destaque no recém- lançado “Água para elefantes”, representará George Duroy no filme Bel-Ami, que está em fase de finalização e tem no elenco Uma Thurman, entre outros nomes estrelados. O assunto, como se vê, é atemporal.


MESTRE DA HISTÓRIA CURTA

Guy de Maupassant

O nome Guy de Maupassant está estreitamente relacionado ao artista que fez do conto a sua obra máxima. Ítalo Calvino o insere no seu cânone com os contos Bola de sebo e Horlà, este último representativo da excelência alcançada pelo francês no gênero sobrenatural. Tanto quanto Edgar Allan Poe, Maupassant fez do fantástico uma incursão que mantém o leitor fisgado às páginas. Também foi poeta e romancista. No romance, sua obra prima é Bel-Ami. Foi o escritor mais lido no mundo nos últimos anos do século XIX.

Nascido em 1840, teve infância sem necessidades materiais. Viveu no campo até os dez anos, em companhia da mãe, mulher culta que tinha entre seus amigos grandes escritores do país, inclusive Gustave Flaubert. Ao ser abandonada pelo marido, passou a sofrer de depressão.

Aos 20 anos Maupassant deixou sua cidade, Tourville-sur-Arques, e foi para Paris, tentar a vida de escritor, já com alguns contos para mostrar aos amigos da mãe. Teve apoio, além de Flaubert, de Emile Zola e de Turgueniev. Entre 1875 e 1885, escreveu mais de 300 histórias curtas, algumas tornadas imortais como os já citados, O Horlà, Mlle Fifi. Com problemas mentais, provavelmente causados pela sífilis, passou os últimos anos de sua vida mergulhado em alucinações. Tentou o suicídio em 1892. Internado em hospício, morreu no ano seguinte. Seu túmulo, no cemitério Montparnasse, ainda é muito visitado pelos fãs.


Serviço
Título: Bel-Ami
Autor: Guy de Maupassant
Editora: Estação Liberdade
Tradução: Leila de Aguiar Costa
Preço: R$ 42,84
Onde comprar: submarino.com

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