Gilmar

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Indicado para o cargo de Secretário Municipal, por Gilmar Dominici, comuniquei-lhe meu desejo de convidar Maria Lúcia Bittar para coordenar a educação infantil no município. Quis saber se isso significaria constrangimento para ele, ou para o Governo, uma vez que toda a cidade sabia que o pai da mulher, Manir Bittar, fora seu mais ferrenho adversário na Câmara Municipal. Ele respondeu:

- Pai é pai, filho é filho. Se você confia nela, nomeie.

Esse é um dos episódios que me vêm à memória quando tento entender a personalidade desse meu amigo que conheci menino, a quem tive a pretensão de ensinar e que me ensinou tantas coisas.

Tenho o Gilmar em alta estima por muitas razões, sobretudo por seus gestos e atitudes sempre condizentes com a dimensão de sua alma, mesmo nos momentos de crises e nas horas de conflitos mais sérios.

Nossa convivência vem desde 1975, quando fui morar na casa ao lado da residência de Dona Tomasia e Senhor Ricieri, pais do meu amigo - ali na Rua Saldanha Marinho, no Bairro Higienópolis.

No começo, a diferença de idade impediu aproximação maior. Depois, os sonhos e a possibilidade de realizá-los através do Partido dos Trabalhadores nos aproximou a ponto de, juntos, integrarmos a mesma chapa que disputava a direção do Partido em Franca. Naquele momento, mais do que nunca, pude testemunhar o desprendimento e a lealdade de Gilmar, qualidades raras num meio tão propenso à degradação em todos os níveis. Lembro-me de que, à época, ficamos decepcionados com alguns companheiros, e o Gilmar, sentado na escada de minha casa, chorou copiosamente, o que não o impediu de persistir, administrar divergências e conciliar nossos primeiros passos políticos.

A figura de Gilmar cresce quando me ponho a recordar os primeiros trabalhos, as primeiras campanhas, quando objetivávamos unicamente a implantação do PT na cidade e trabalhar por um mínimo de consciência política dos trabalhadores. Nessa fase, o rapaz foi incansável, sacrificando muito de sua juventude em prol de um sonho, de uma causa que era a razão de nossas vidas.

O tempo passou, levando o meu amigo sempre a portas de fábrica, a portas de curtumes, a reuniões em bairros, à tribuna da Câmara, à Prefeitura da cidade.

O tempo passou, ensinou limites, impossibilidades, obstáculos naturais ou aqueles fabricados deslealmente, mas não alterou a pureza do meu amigo. De repente, em momentos graves, ele se lembrava de algum destempero meu e caía na risada.

Entendo que o Gilmar acreditou demais nas pessoas. Sempre. E foi esse gesto permanente que o fez gêmeo do tolo e do santo.

Na visão pragmática de muitos, Gilmar cometeu erros. Mas, o que os positivistas apontam como descaminho, eu entendo como virtude que o faz admirável.

Entendo que a ingenuidade do Gilmar é a virtude que aproxima suas ações dos atos praticados pelos seres mais elevados. Desconsiderou a maldade de muitos, acreditou no seu Partido, acreditou que todos que dele se aproximavam acalentavam o mesmo sonho de colocar sorriso no rosto das crianças e dignidade na vida do trabalhador. Acreditou na lhaneza dos homens de diferentes credos.

Essa crença fez dele quase um tolo para muitos, um incompetente para alguns, um desonesto para outros.

Para mim, essa crença o eleva.

Para seguir os impulsos de sua índole e de seu coração, pagou alto preço. Mas jamais deixou de acreditar na criatura humana, o que talvez o tenha cegado para "erros" a seu lado.

Gilmar optou sempre por arcar com as responsabilidades a execrar fracos de personalidade em praça pública.

— Pensa nos filhos, nos pais do cara. Eles é que pagarão.

Gilmar deixou a Prefeitura há muitos anos. Como permanece personalidade importante na cidade, de quando em quando é novamente crucificado, nem sempre pelos próprios erros. Cada vez que isso ocorre, sinto-me também ferido.

Também fui tolo, acreditei em muita gente que mentia partilhar sonhos.

Fui tolo, muito tolo.

Mas me sinto também um pouco realizado: convivi com Gilmar Dominici, considero-me seu amigo.

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