Conversas sobre outros tempos

Por: Mauro Ferreira

Tenho uma amiga que foi companheira de classe no Coronel e no IETC e que se aboletou carioca, talvez definitivamente. Ela reclama do Rio, às vezes com azedume. Mas acho que no fundo, gosta. Comentei sobre o fim do verão suarento: "como você me dizia, tinha sobrevivido ao verão, descrevia poeticamente o Rio Maravilhoso, reclamava do calor. Eis que chega o outono. Lembra quando a última enchente era a das goiabas? Parece que agora tem outra depois. Lanche na escola. Fome ninguém passava. Tinha a sopa dos alunos pobres no velho Coronel, como era mesmo o nome daquela senhora que tomava conta disso? Dalva? Darci? Lembro que uma vez insisti para tomar a sopa, minha mãe não queria deixar, mas tomei e gostei. Eu me lembro também de levar o lanche embrulhado num pano xadrez, era pão com manteiga, fruta ou bolacha maizena da Duchen, não existia barra de cereais nem margarina. De vez em quando, comprava puxa, uma delícia feita de açúcar, arredondada e compridinha, ou quebra-queixo, feita de açúcar com coco queimado, ficava um vendedor na porta da escola (ainda não vendiam maconha na porta da escola, só uns catecismos do Carlos Zéfiro). Tinha o Zorro, um doce num palito, tinha paçoquinha embrulhada Expresso. Doce de leite e balas, todas as marcas e sabores. Só podia dar em cárie, pois a água não era fluoretada ainda. Quanto aos papagaios-pipas, gozado, nunca tive também, poucas vezes empunhei uma corda de uns amigos, mas eles gostavam de ficar brigando um com o outro para derrubar, eu só queria ver aquele treco voando, lindo. Além disso, eu tinha medo da fiação elétrica, os adultos viviam metendo medo na gente sobre isso, levar choque e tal."

Ela me respondeu simples e bonito assim, com a alma cheia de poesia: "perguntei pra minha irmã o que levávamos de lanche e ela também não se lembra. Amnésia familiar. Diz ela que era doce de leite (chii, parece vício da cidade), em pedaços. A não ser que eu tenha sido excluída dessa farra dos doces, ela acaba de inventar um folclore para o nosso lanche. Lembro-me da sopa do Francisco Martins, mas nunca tive coragem de experimentar. Mas me lembro que às vezes pediam contribuição e eu levava as lindas couves que meu avô plantava. A mulher da sopa sempre elogiava e eu ficava puro orgulho. Orgulho de couve. Me lembro da caixinha de madeira com o quebra queixo. Só comi uma vez. Balas, só no cinema no final de semana. Primeiro foram as Chitas, depois veio a de cevada, depois drops Dulcora e, finalmente, a Piper. Nunca tinha pensado na evolução no mundo das balas."

Conversas de quem foi criança nos anos 50 e 60 do século passado. Pura poesia e ficção, impossível acreditar hoje que essas coisas tenham existido. E que nós as tenhamos vivido.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras