Língua estropiada

Por: Sônia Machiavelli

Faz tempo que o assunto chama minha atenção. Embora afastada do magistério há décadas, nunca desviei meu olhar da educação. E seja avaliando o noticiário produzido por nossos jornalistas, participando dos encontros que o GCN promove com educadores ou lecionando para duas classes como voluntária no Veredas, mantenho contato direto com professores e alunos. O ensino da Língua Portuguesa, como vem sendo ministrado pela maioria dos docentes, me surpreende negativamente não é de hoje. Há pelo menos dez anos registro de público o meu espanto diante do fato de que professores das cinco primeiras séries de ensino, que considero fundamentais, não corrigem os erros de linguagem oral e escrita de seus alunos.

( Luís Martins, emérito professor de Língua Portuguesa no IEETC dos anos 60, levava cadernos de alunos adolescentes para casa uma vez por mês, corrigia-os e considerava tudo, da ortografia à pontuação, do zelo à caligrafia. Conferia nota. E as classes nunca tinham menos de quarenta alunos.)

As perguntas que mais me incomodam no presente são três. Como a criança vai entender que grafou erradamente uma palavra, não fez concordância verbal ou ignorou a estrutura lógica da frase se isso não é apontado no seu texto? Qual será o parâmetro que usará para discernir o que é correto na língua culta e o que não é aceitável? Ao chegar ao vestibular ou a algum teste para emprego, qual língua lhe será exigida, a da norma culta ou a popular?

Presumo que cabe à escola pública ensinar a norma culta, o que não significa impor ao estudante em processo de alfabetização ou recém alfabetizado a linguagem castiça ou a literária. Mas daí a endossar registros como “eu poço”, “nóis come”, “inclozível”, “instrugido”, ou, como propõe o já polêmico didático patrocinado pelo MEC, Por uma vida melhor, “os livro ilustrado mais interessante são emprestado”, vai uma distância considerável.

Por mais estranho que possa parecer, os expoentes do MEC têm demonstrado ignorar totalmente que a linguagem não tem para os humanos apenas função fática. Ela é também instrumento para pensar, refletir, conhecer, analisar, avaliar. Quando uma criança é treinada a concordar o verbo com o sujeito em um enunciado, está sendo induzida a desenvolver raciocínio lógico. Quando é levada a usar de forma racional os tempos verbais, faz reconhecimento do presente relacionado ao passado e ao futuro, exercício essencial para entender ordem cronológica, a histórica e a pessoal. Quando lhe é solicitada elaboração mental para os períodos compostos, ela se vê com mais clareza dentro de processos de coordenação e subordinação, expressões de raciocínio menos primário.

Concordo com os que argumentam que a evolução da língua é fato e a norma culta no Brasil, especialmente nas últimas cinco décadas, deixou de ser valor absoluto. Tenho consciência de que a fala popular pulsa as mudanças que a norma um dia acatará, enquadrando-as como corretas. Mas não se pode atropelar o processo. O pronome de tratamento Vossa Mercê levou séculos para se metamorfosear em você. Foi por etapas, passando lentamente por fenômenos dos quais a etimologia cuida. É certo que vivemos outro momento, outra história, outra velocidade. Mas é inconcebível tratar a língua, também nossa identidade cultural, com tanta leviandade, descaso e desrespeito, como se apenas o fato de comunicar algo redimisse o falante de todo o estropiamento a que submete o idioma. Não é bem assim.

Por alguma razão a língua alemã, com sua morfologia e sintaxe similares ao grego, por excelência o idioma do pensamento, produziu os maiores filósofos dos últimos 150 anos, embora tenha dito Adorno que “tudo o que se diz em alemão pode ser dito em japonês”. Talvez a maneira não seja tanto o que dizer mas como dizer. Teria sido o grande desafio para os últimos ministros da área, Haddad incluído, caso fossem minimamente versados em filosofia da educação. E caso não estivessem tão acomodados em uma situação de conforto que breve lhes permitirá dizer : “ nóis vai, nóis vem, nóis faiz o que nóis qué e ninguém manda in nói”. Aliás, Cristóvão Buarque diz que acha bonito.

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