Comunhão

Por: Eny Miranda

130674

“Faze de ti um duplo
ser guardado”

Fernando Pessoa,
in Conselho

Era um belíssimo buquê, como outros belos buquês: múltiplas formas, cores e texturas, cuidadosamente escolhidas e distribuídas em invólucro semiaberto. Mas havia nele um quê especial, um toque, um traço vivo... Não, não era o toque na escolha e distribuição das flores, ou o traço na seleção e disposição das palavras, nele aninhadas, que o faziam assim, palpitante. Havia outro detalhe - a princípio, não o soube definir - maior do que a beleza de pétalas que se agrupam com arte e pintam olhares (mesmo os de terracota) em luz de seda; maior do que o encanto de palavras amigas que se expressam com elegância e aquecem corações: algo além do aparente.

Tomo-o, então, nos braços, e posso sentir-lhe os amplos jardins originais pulsando.

Nele, há duas verdades: a que (ali) está, visível e tangível, força da vida brotada da terra, matéria, ainda que delicada e finamente trabalhada; e a que é, invisível e intangível, força da vida brotada da alma. Nele, há flores evidentes, em que os olhares podem vislumbrar canteiros esculpidos; e ervas impalpáveis, em que a sensibilidade pode pressentir campos naturais. Nele, a comunhão de múltiplas corolas e ramas, tão belas e humanas, na arte desvelada, quanto humanas e belas, na misteriosa arte da flor nativa, que medra livre nas campinas do ser.

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