É nóis na inguinorança du sabê

Por: Everton de Paula

Concordo plenamente que vivemos num país surrealista. O governo não só estimula a ascensão das classes menos favorecidas à classe média, mas também (e inaceitavelmente) insiste em que as classes A e B passem a adotar estilos, gosto e comportamento das classes em ascensão.

É admirável e digno de louvor o esforço para que haja cada vez menos desigualdades sociais, mas é inadmissível que essa desigualdade seja nivelada por baixo.

O que temos agora? Um livro didático de língua portuguesa adotado pelo MEC (Ministério da Educação) que ensina o aluno do ensino fundamental a usar a norma popular da língua portuguesa.

O volume Por uma vida melhor, da coleção Viver, mostra ao aluno que não há necessidade de se seguir a norma culta para a regra da concordância. Os autores e organizadores da obra usam a frase ‘os livro ilustrado mais interessante estão emprestado’ para exemplificar que, na variedade popular, só ‘o fato de a palavra os (plural) já indica que se trata de mais de um livro’. E outro exemplo, os autores mostram que não há nenhum problema em se falar ‘nós pega o peixe’ ou ‘os menino pega o peixe’.

Podemos corrigir o aluno quando cometer esses erros ao falar? Nãããoo! Segundo os autores do livro, o estudante, se corrigido, pode correr o risco de ‘ser vítima de preconceito linguístico.’ O estudante, se corrigido em caso de não usar a norma culta, é vitima de preconceito linguístico!

E qual a posição do MEC frente a tal disparate? Ora, o execrável comportamento do politicamente correto: o livro da editora Global foi aprovado pelo MEC por meio do Programa Nacional do Livro Didático.

Isto está ocorrendo no Brasil de hoje, assim como temos medidas governamentais que andam propiciando erros que são aplaudidos por uma população que dá mais de 80% de popularidade ao ex-presidente e à presidente atual. Vejamos: reajuste pífio do salário dos professores; a aposentadoria fantástica dos parlamentares públicos; o preço inexplicável do litro de gasolina; a volta gradual da inflação; o desarmamento civil e a ineficaz fiscalização de fronteiras com países que vendem armas aos marginais brasileiros; falta de ação quanto ao turismo sexual nos estados do Nordeste, envolvendo menores de idade; a impunidade ao desrespeito no trânsito; uma política social que não controla o crescente aumento de usuário de drogas...

E quando pensamos que isto só ocorre com nossos vizinhos, temos a notícia de que os vereadores de Franca não aprovaram proposta para que nossa cidade pudesse desfrutar de uma refinada vida cultural e acesso a artistas (plásticos, cênicos, musicais) de renome nacional.

Querem nos enfiar goela abaixo a música de qualidade duvidosa, mas rentável comercialmente; querem ensinar nossas crianças a falar errado; querem desprestigiar os professores; querem nivelar as classes sociais por baixo...

Vejo agora, com tristeza, que Euclides da Cunha foi entendido às avessas quando propôs que incorporássemos nossos rudes patrícios do interior à civilização litorânea (1902). O notável escritor fluminense predisse: ‘Estamos condenados à civilização: ou progredimos ou desaparecemos.’ Esta frase, hoje, está sendo substituída por uma realidade cada vez mais palpável: ou nóis é povão ou nóis tá por fora!

Ora, por que não permitir às classes sociais ascendentes o acesso à nossa melhor literatura, à nossa melhor música, ao que há de melhor em tudo o que a inteligência e a sensibilidade brasileira produziram ao longo de cinco séculos?

Os papéis estão se invertendo. E quando o Ministério da Educação dá aval a livros didáticos que ensinam aos alunos que se pode falar errado, então não há mais espaço em jornais nem leitores e almas que se sensibilizem a críticas como esta.

Alfredo Palermo, João Alves Pereira Penha, Luís Martins, Ciryno Goulart, velai por nossa terra!

***

Nota: este artigo foi enviado ao escritor, jornalista, professor universitário, euclidianista, aluno de Evanildo Bechara, frequentador dos corredores da Academia Brasileira de Letras e grande amigo. Leiam sua resposta:

Everto:

Ocê tá muito brabo, sô!

Do jeito que o pessoar tá propondo, nóis vai saí do preantepenúrtimo lugá MUNDIAR na capacidade de lê e iscrevê. Qué dizê: si nóis pega a lista do país e ponhá de ponta-cabeça, nóis fica em premêro! Tá pra lá de bão!!!

Nun dianta ocê apelá pros Palermo da vida e eu invocá os Hersilio: tá tudo dominado!!!

Abrasso do Marssio.

***

Nota 2: o Palermo a que ele se refere é o nosso querido e inesquecível Alfredo Palermo. Já o Hersílio é um ícone da intelectualidade de São José do Rio Pardo, SP, meca do euclidianismo.

***

Nota da Redação:

Na edição do último sábado, dia 14, o texto publicado nesse espaço, de autoria do professor Everton de Paula, ficou truncado e com trechos incompreensíveis. Ocorre que o texto original enviado pelo professor era apenas um rascunho que foi encaminhado para publicação indevidamente. Em carta, o professor esclareceu o ocorrido:

‘Justifico o ocorrido ao mesmo tempo em que isento o jornal Comércio da Franca de qualquer responsabilidade frente às incorreções. Responsabilizo-me inteiramente pelo seguinte: ao discorrer sobre perfis positivos e negativos da intolerância, pesquisei no endereço virtual http://pt.wikipedia.org/wiki/Intolerância e procedi a recortes (cópia e colagem) de dois pensamentos contraditórios, cujo conteúdo seria matéria a ser abordada e discutida. A abordagem com apresentação do tema e suas variantes ficou pronta para ser enviada ao jornal. Sucede que, inadvertidamente, não apaguei do texto as frases coladas, de modo que elas formaram um corpo desconexo ao serem impressas junto ao meu pensamento original. Lamento o ocorrido, peço desculpas pelo incômodo causado e cumprimento o jornal Comércio da Franca, pelo cuidado e critérios para que se estabeleça, ainda mais, seu compromisso com virtudes jornalísticas como a verdade, a originalidade, a autenticidade, sem o que veículo impresso algum se sustenta na credibilidade de seu público leitor.

Atenciosamente,
Everton de Paula’

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras