“Uma mulher para se amar”

Por: Maria Luiza Salomão

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“Harry: por que vocês, mulheres, querem tudo ou nada? Érica: não sei. Acho que nós somos tontas no amor, eu acho”

Meio do filme
Alguém tem que ceder

Para ter con-ti-nui-da-de em qualquer relacionamento... “alguém tem que ceder”! O letreiro passa, início do filme, com imagens de lindas mulheres jovens. Ouve-se a voz de Harry (Jack Nicholson) “... elas têm menos de 30 anos... deixam qualquer homem indefeso....eu as namoro há 40 anos...”

Harry viaja com Marin, uma das beldades, para a casa de praia da mãe dela (Diane Keaton, mãe de Marin, é Érica) e enfarta quando vão transar. Érica cuida da sua recuperação, Marin desiste do “velho”. Érica e Harry se apaixonam, mas Harry, 63 anos, não desiste das “mulheres de 30”. Érica, 57 anos, separada do pai de Marin, bem sucedida escritora, é paquerada pelo cardiologista, 36 anos, que atende Harry, encenado por Keanu Reeves.

Eis a trama a mexer com o imaginário de homens e mulheres. A questão é o que fazem as mulheres mais velhas? E o que fazem os homens velhos quando se descobrem...mais velhos? E quando o desempenho sexual masculino declina de intensidade, e o companheirismo, a cumplicidade, interesses comuns tornam-se também importantes aos dois gêneros? Interessantes os pós-modernos, nestas questões. Há mulheres (e não só as com menos de 30 anos) que veem o Sexo como se fossem iguais aos homens; juventude e beleza são imprescindíveis, assim como o Tesão. Há homens-jovens que mostram necessidade de Afeto e buscam maior intimidade com a Mulher. Homens e Mulheres não são todos iguais!

A questão que a diretora desenvolve, com humor fino e revelador, cutuca o imaginário do Homem mais velho, que busca na mulher jovem a possibilidade de manter seu lado sedutor e divertido, prazeroso, “jovem”. A mulher mais velha em geral está ressentida com os homens de sua idade, que procuram as jovenzinhas e não valorizam seus outros possíveis dotes: experiência, companheirismo, comprometimento.

O talento de Meyers está nos detalhes. Em uma cena de praia, o sedutor e galante Harry oferece uma pedra negra para Érica, para contrastar com a coleção de pedras brancas, guardadas em potes na casa. Ao ir embora, Érica lhe dá um pote de pedras negras (com uma só pedra branca).

Érica escreve uma peça de teatro sobre a sua relação com Harry, como que tentando elaborar, via escrita e com Humor, sua vulnerabilidade frente ao Amor, sua Paixão e sofrimento pelo amor não correspondido. Várias cenas mostram Érica rindo, chorando, e se desesperando, mas escrevendo. Em um diálogo interessante, Marin fala à mãe que, ao se relacionar com homens mais velhos, tipo Harry, sente-se protegida, mantendo sob controle o desejo (uma “teoria de auto-proteção”), sem se envolver.

(Defesa excessiva contra a Dor impede, definitivamente, o Prazer.)

Érica, sofrendo muito, contraria Marin. O seu envolvimento trouxe também a possibilidade de viver bons momentos (“o drama a torna mais forte”). Nietzsche diria “o que não me mata, me fortalece”.

Harry resiste a mudar mesmo impactado pelo espectro da Morte, angustiado e surpreso pela boa e íntima experiência com Érica. Ele conta a Érica que fez uma “viagem ao passado”, ouvindo as mulheres com quem se relacionou, gerações delas. Diz: “Quando você ouve a mesma história, por várias vezes, sobre você, sua vida começa a ter sentido”. (parece ter deitado no divã).

“O que em mim sente, pensa”, diz o poeta Fernando Pessoa. A sofrência do Prazer e da Dor é caminho para a elaboração do pensar. Érica desnuda-se e se entrega. Harry aprende a ouvir as mulheres e a se ver através delas. Não se trata de ceder ao Outro um espaço, mas conceder a si o Tempo de amar (e ser amado). Uma mulher para se amar. Um homem para se amar.

O que alguém tem que ceder, internamente, para amar (ou ser amado)?

Myriam S. Vianna, psicanalista da SBP de Ribeirão Preto, e da SBP de São Paulo irá nos conceder algo, no Centro Médico, às 14h30. Vamos rir juntos, enxugando as lágrimas. Afinal, a Comédia nasce da aceitação do Trágico em nossa precária e maravilhosa, complexa, Condição Humana.


BIOGRAFIA

Nancy Meyers

Dirigiu, produziu Do que as mulheres gostam, 2000, com Mel Gibson como o publicitário machista que tem o dom de ler pensamentos das mulheres. Escreveu, além de produzir e dirigir, em 2003, Alguém tem que ceder, e mais dois filmes. 1. O Amor não tira férias, 2006, duas mulheres frustradas em seus relacionamentos amorosos, trocam de casas no Natal, via Internet. Kate Winslet é editora de coluna social em jornal, e Cameron Diaz é a produtora de trailers para o cinema, em Los Angeles. As duas têm a oportunidade de encontrar novas formas de viver suas vidas. 2. Simplesmente Complicado, 2009, Meryl Streep e Alec Baldwin estrelam o casal que se divorcia. O marido tem nova família, mas os dois ex- voltam a se apaixonar e se tornam amantes!

O que os filmes têm em comum? Galãs com um halo machista, Nicholson, Gibson e Baldwin, se transformam no convívio com mulheres de meia idade, bem sucedidas, bem humoradas (que não estão à caça de homem). Passam a ser atentos e sensíveis, re-configuram o imaginário masculino, que retrata o desejo de colecionar jovens bonitas e gostosas, sem responsabilidade afetiva.

Meyers surpreendeu a indústria do Cinema, faturando milhões de dólares, ao mostrar um recorte do mundo atual. Impensável ao mundo dos nossos bisavôs!


Serviço
Título: Alguém tem que ceder
Gênero: Romance
Distribuidora: Warner
Duração: 128 min
Classificação: 14 anos
Diretor: Nancy Meyers
Elenco: Jack Nicholson, Diane Keaton, Keanu Reeves

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